segunda-feira, 8 de março de 2021

BOLSONARO E O NOVO ESPÍRITO DO CAPITALISMO



O último episódio no qual o presidente da república novamente diz que as preocupações com a pandemia são um "mimimi" é um dos principais reflexos da debilidade moral de nosso tempo. Algo que tem passado despercebido nas discussões atuais sobre a conjuntura brasileira é que Jair Bolsonaro, ao defender este tipo de discurso, tem atuado como o principal porta voz do novo capitalismo no Brasil. 
Nos anos de 1990, a hoje clássica análise de Luc Boltanski e Eve Chiapello em seu livro "O novo espírito do capitalismo" se colocou como uma das principais interpretações do capitalismo contemporâneo. Seguindo a melhor tradição de clássicos como Weber e Sombart, os autores priorizaram a preocupação com o espírito do capitalismo, ou seja, todo o conjunto de ideias e ações que lhe atribuem significado em cada tempo histórico. 
Usando o conceito de ideologia de Louis Dumont, eles percebem esta não como uma falsa consciência, no sentido marxista, mas sim como um conjunto de representações, referente às necessidades específicas de reprodução da dominação social em cada período específico do capitalismo. Tais representações precisam angariar corações e mentes das pessoas, de modo que o sistema possa continuar a existir em toda a sua perversidade, apesar de termos ampla consciência de sua desigualdade na esfera pública. 
Com isso, o capitalismo atual, tematizado pelo livro como sendo perpassado pelo "terceiro espírito do capitalismo", não depende mais do discurso da ética protestante, como em seus primórdios, de acordo com a bela e clássica interpretação de Max Weber. Para os autores, o primeiro espírito do capitalismo é aquele do aventureiro, como tematizado por Weber e Sombart, e se remete aos primórdios do capitalismo moderno, nos séculos XVII e XVIII, que dependia da ideologia da disciplina protestante para sua sustentação moral. O segundo espírito é aquele que se conforma já no final do século XIX, com o surgimento das grandes corporações e a separação profissional entre propriedade e gerência, no qual a figura dos executivos e o papel social das empresas ganha proeminência. 
No terceiro espírito, que se conforma a partir da década de 1970, o capitalismo precisa responder à inúmeras críticas sociais e estéticas, como belamente definem Boltanski e Chiapello, o que o leva a buscar esconder as figuras de autoridade e hierarquia. O executivo engravatado é agora substituído pela figura do líder camarada e despojado, que vai ajudar os seus colaboradores a vencerem juntos, no novo formato empresarial flexível que os autores definem como "cidades por projetos". Agora, basta você vestir a camisa da empresa, desenvolver uma personalidade flexível e pronto, a felicidade está acessível, com promessa de bons salários e consumo. 
O que Jair Bolsonaro tem a ver com tudo isso? Neste cenário atual, o capitalismo precisa mais do que nunca engajar todas as classes sociais na reprodução de uma sociedade tão desigual e tão brutal. O contexto de crise estrutural global do capitalismo não é novo, e nos remete aos anos de 1970, o que é consenso para vários analistas sérios como Robert Castel, Ulrich Beck, Nancy Fraser, além de Boltanski e Chiapello e também economistas como Wolfgang Streeck e Thomas Piketty. Todos eles percebem no fim do Welfare state europeu e americano o início de um novo tempo de precarização global do capitalismo e que podemos também definir como o início de um processo irreversível de institucionalização da indignidade do trabalho. Desde então, o fosso entre a elite e as demais classes sociais, inclusive a classe média alta, tem aumentado em escala global.
Dentro deste cenário maior, a crise financeira de 2008 apenas aprofunda a situação, e especialmente nos países periféricos. No Brasil, a conta já chega no governo Dilma Rousseff, se aprofundando no segundo mandato e levada adiante com a perversa dobradinha Temer-Bolsonaro. Temos como resultado um golpe de estado e uma reforma trabalhista que apenas chancela todo este processo global e sua especificidade acelerada nos últimos anos no Brasil, criando o que eu sugiro definirmos como uma "dupla precariedade do trabalho", estrutural e conjuntural ao mesmo tempo, considerando nossa precariedade histórica e nosso cenário político atual perverso. 
Com tudo isso, se voltarmos à fina teoria do capitalismo de Boltanski e Chiapello, compreenderemos que este novo capitalismo precisa de um porta voz que garanta os engajamentos, mesmo em cenário aparentemente injustificável sob qualquer ponto de vista. Quando Bolsonaro cria uma falsa oposição entre a vida econômica e a vida moral da população, ao priorizar a questão do trabalho (ficticiamente, é claro!) em detrimento da questão da saúde, ele está buscando exatamente o engajamento da grande maioria da população brasileira afundada no trabalho precário e indigno. Com isso, o presidente deixa de ser um chefe de estado e passa a ser um "relações públicas" do mercado. Nada mais do que isso. Essa é a verdadeira função de Jair Bolsonaro: engajar a população oprimida do Brasil em um sistema de trabalho global que está aumentando sua perversidade em velocidade preocupante. 
Quando ele diz, por exemplo, que o brasileiro é corajoso ao ir pra rua trabalhar e não usar máscara, que o povo precisa trabalhar, que é uma gripezinha, etc, ele está perversamente, e vale aqui repetir com ênfase esta palavra, obrigando o povo a ir pra rua, de modo que o sistema não pare, pois este não pode abrir mão do trabalho braçal da massa, enquanto a classe média e a elite, especialmente agora na pandemia, continuam cada vez mais trancados em casa, no trabalho remoto e expostos à insanidade mental. Quando o relações públicas diz que a economia não pode parar, ele está sendo não o executivo do estado, mas o executivo do mercado. No passado o capataz usava um chicote, hoje, usa um smartphone. Não por acaso, o presidente é lider das redes sociais. Inclusive, o nível de instrumentalidade do sistema e tanto, que o próprio presidente, como pessoa, é um objeto, exposto sem máscara às multidões e representando todo o negacionismo perfeitamente encarnado em sua própria imagem. 

Como solução, precisamos ter alguma esperança para 2022. Alguns cenários já se esboçam em pesquisas recentes, mas ainda vagos e não muito promissores. A população como um todo, e especialmente os mais pobres, precisa urgentemente entender que Bolsonaro é seu grande inimigo. A esquerda precisa por o pé no chão e definir uma candidatura forte imediatamente, ou será (talvez já seja?) novamente tarde demais. A bolha universitária e de classe média precisa parar de perder tempo com picuinhas identitárias a là Big Brother e ser vanguarda na construção de um imaginário democrático e realmente tolerante. Com tudo isso, talvez tenhamos alguma chance de construir um cenário melhor ali na frente. Talvez tenhamos alguma pequena chance.  


Fabrício Maciel é professor de teoria sociológica do departamento de Ciências Sociais da UFF-Campos, do PPG em Sociologia Política da UENF e bolsista de produtividade do CNPq.

terça-feira, 21 de julho de 2020

AS INVASÕES CIBERNÉTICAS E A DITADURA TECNOLÓGICA

Aldous Huxley e George Orwell haviam profetizado: eles vêm atrás de nós. Chegará um tempo no qual não teremos nenhuma privacidade. Este tempo chegou. Michel Foucault definiu esta realidade como um "panóptico", no qual todos somos vigiados. Na semana passada, eu e um amigo sofremos um ataque virtual, de pessoas mal intencionadas, em uma live sobre meu livro "O Brasil-nação como ideologia" (Rio de Janeiro: Autografia, 2020, 2ª edição). Passados alguns dias, resolvi não ficar calado. Não vou simplesmente aceitar a falta de respeito que sofremos.

O que faço da minha vida? Sou professor universitário. Eu estudo para compreender o mundo. Dedico todo o meu tempo para tentar construir um mundo melhor. Não tenho tempo para vigiar a vida alheia, como fizeram meus invasores. Fico me perguntando sobre a condição existencial destas pessoas. Sabemos o que está acontecendo no mundo e especialmente no Brasil. Está instalado o gabinete do ódio, cuja tarefa diária é construir uma versão totalmente distorcida de mundo e perseguir pessoas ditas de esquerda ou progressistas.

Independente destes rótulos, a proposta do meu livro é pensar o Brasil a partir de uma revisão de sua história. Para isso, precisamos sair das ilusões da conjuntura para compreender como chegamos até aqui. O projeto iluminista deu errado e o mundo está absorto em trevas. O que leva uma pessoa comum a se tornar uma peça descartável neste xadrez, invadindo lives de professores universitários?

Poderíamos culpar a desigualdade e dizer que são vítimas, pessoas sofrendo etc. Mas acho que é um pouco mais do que isso. A maldade humana pode ter a ver com diversas razões. Falta de atitude em querer viver melhor, por exemplo. Mas também pode significar falta de sentido na vida. Até quando vamos aceitar estes ataques, já corriqueiros? Já temos relatos do Brasil inteiro. Não vou deixar de fazer o que sempre fiz, pois este é o sentido da minha vida. Acho que as universidades precisam seriamente se posicionar, institucionalmente. Estamos sendo vítimas de uma guerra doentia montada por pessoas que sabem muito bem o que estão fazendo. Não dá para deixar passar em branco. 

Estamos vivendo sob uma ditadura tecnológica, e o principal problema é que já a naturalizamos. Ela transcende o problema grave do covid, que nos assola profundamente neste momento. Em minha tese de doutorado, publicada como livro sob o título "A nova sociedade mundial do trabalho: para além de centro e periferia?" (São Paulo: Annablume, 2014), estudei as profundas transformações do capitalismo global desde a década de 1970. Um dos aspectos centrais desta discussão é a transformação do capitalismo em uma "sociedade do conhecimento". 

André Gorz, um dos principais autores desta tese, definiu o problema com bastante propriedade: a principal força produtiva e estruturante das sociedades atuais é o conhecimento tecnológico, dominado por poucos. Este é colocado a serviço da elite global para construir uma nova forma de dominação. Sem a tecnologia utilizada pelo poder da classe dominante global não teríamos hoje o novo fenômeno da indignidade: a uberização do trabalho. O patrão é invisível, difícil de se caracterizar como tal e de se processar juridicamente, como temos visto em alguns casos já no Brasil. Cada qual que pague com seu próprio corpo e o covid-19 chega para levar a cabo o trabalho de abandono e matança coletiva. Os entregadores todos os dias na porta de nossas casas estão neste front de batalha, além das mulheres protagonistas de diversas profissões da saúde, expostas ao risco neste momento.

O poder profundo da tecnologia sobre nossas vidas chegou a seu ápice. Hoje somos vítimas de cinco ou seis empresas globais que têm acesso a todos os nossos dados e podem mapear em cinco minuto tudo sobre nossas vidas. Com isso, não são apenas as pessoas "de esquerda" ou "progressistas" que estão expostas. Todos nós estamos. A nova dominação político-tecnológica, que esconde o mercado dos ricos por trás dela, chegou ao limite de poder ilimitado que elege quem quiser. 

Para saber mais, sugiro o documentário "privacidade hackeada" (direção de Jeane Noujaim e Karim Amer, netflix, 2019). Nele é mostrada a ação da empresa Cambridge Analytica e como ela foi decisiva na eleição de Trump e no problema do Brexit na Europa. A mesma lógica foi aplicada na eleição de Jair Bolsonaro. Entretanto, a história possui linhas tortas e este momento pode passar logo. Há grandes chances de que Trump não se reeleja nos Estados Unidos. Ou seja, o sentido que parece estar tomando a história neste momento pode mudar ali na frente e pegar muita gente de surpresa.

Quanto aos soldados da guerra virtual, os generais não morrerão junto com eles. Esta é uma guerra apenas aparentemente coletiva, na qual as principais peças do Xadrez conseguem facilmente mobilizar pessoas com pouca auto-estima para brincar de bater continência a líderes que não estão nem ai para elas. Trágica existência. A leitura de um Olavo de Carvalho pode trazer algum conforto, pois no fundo oferece um reconhecimento fake para aqueles que encontraram pouco sentido na vida. Tudo pode ser relativizado: a cloroquina pode salvar dos efeitos do covid-19 e a terra pode não ser redonda. A única coisa que não se relativiza é a condição de soldado em uma gerra: nunca será reconhecido pelo seu mestre, seja ele quem for. 

Enquanto os soldados fazem o trabalho braçal de invadir lives, colocando sua inteligência gratuitamente em favor de uma guerra particular, de seus mestres, estes nunca se expõem no front de batalha. Estão escondidos em suas mansões provando vinhos e carnes que seus leais soldados jamais provarão. Isso poderia ser uma razão para a reflexão. Talvez ajudasse na busca por um sentido mais profundo na vida.  

domingo, 14 de junho de 2020

NÃO É HORA DE BAIXAR A GUARDA

Estamos em um momento horrível da pandemia e as projeções não são das melhores. A principal reflexão a se fazer agora é que não devemos baixar a guarda, ou seja, naturalizar a rotina e aos poucos procurarmos voltar a uma normalidade que não existe mais. Depois de várias semanas de pandemia, passamos a perceber as coisas de outra forma. Tudo tem seu lado bom, mesmo estes momentos difíceis. Percebi como a luz do sol, nesta época do ano, bate bonita em nosso quarto, como nunca antes. Podemos nos voltar a nós mesmos e tirar tempo para autoavaliações perdidas na velocidade da rotina, como era antes.

Mas o que fazer quando não se pode parar? Neste momento, os moto boys talvez sejam os principais objetos de análise, os mais simbólicos, sobre a realidade que nos assola, diante da qual precisamos nos adaptar a cada semana. Eles não podem parar, como mais da metade da sociedade brasileira não pode. As classes livres do trabalho indigno precisam entender seu privilégio e ficar em casa, sem ampliar o risco da contaminação.

Mas o que fazer quando se é escravo do trabalho indigno? É compreensível a crença na cloroquina e na definição de gripezinha, quando não se tem o tempo suficiente, na dura e indigna rotina, veloz como um moto boy, para se fazer profundas reflexões ou ler longos debates. Também não dá tempo de saber o que é OMS. A realidade fora da bolha das classes privilegiadas muitas vezes é imcompreensível para estas, mas não para as classes de risco.

Não é possível se preocupar com "não baixar a guarda", quando é preciso se resguardar dos males que precedem o coronavirus, que sempre estiveram lá e que não vão mudar com alguma vacina ou com discussões políticas vagas, mas com mudanças políticas de fato e políticas públicas em favor da dignidade das classes populares no Brasil.

As reaberturas, parciais ou não, realizadas Brasil afora neste exato momento, estão totalmente fora da realidade. Agora seria a hora de reforçar o lockdown no país inteiro. Este fato apenas deixa claro o que o capitalismo e a sociedade de risco realmente são: um sistema econômico e social que garante a segurança material e moral de suas classes privilegiadas com base na exposição ao risco permanente, material e moral, de suas classes populares. A realidade dos moto boys na verdade não mudou muito de uns tempos para cá. Apenas surgiu o risco da contaminação, que não precede seu risco existencial desde sempre. 

Não é preciso baixar a guarda: recado para as classes livres da indignidade. Não é possível levar a sério demais um risco sanitário, que não precede a fome, resposta advinda da realidade popular. O que fazer então? Em um plano analítico, não devemos baixar a guarda na busca por uma análise sensata do momento atual, o que não é facil, pois nossas emoções se alteram em uma rotina um tanto quanto imprevisível.

Nosso esforço político para o Brasil do futuro próximo, pós-pandemia ou talvez convivendo com ela mais do que gostaríamos deve formular uma política sistemática de resguardo da dignidade das classes populares. Para tanto, primeiro, é preciso recuperar e resguardar a própria política das patologias e dos virus que a assolam nestes tempos sombrios.

Vivemos agora um fenômeno de desmoralização e deslegitimação sistemática do campo político, portador de todos os holofotes e reduzido ao princípio da corrupção, enquanto o mercado financeiro é quem dá as verdadeiras cartas neste jogo. Precisamos resgatar e resguardar a política deste lamaçal, e o único caminho democraticamente desejável é o institucional. 

Há de se soerguer um candidato progressista no Brasil para a próxima eleição, que tenha mérito e dignidade para receber o voto da maioria dos brasileiros? Desejo que sim. Este, entretanto, precisará compreender alguns princípios básicos da política, ensinados pelo bom e velho Max Weber. 

Não é suficiente que este candidato ou candidata seja um bom moço ou moça. Também não basta ter um bom padrinho político, campeão em transferência de votos, mas que talvez agora não transfira tanto assim. Também não é tudo ser um grande intelectual, que compreenda o Brasil profundamente, ainda que isto possa ser de fundamental ajuda. 

Ainda assim será preciso compreender profundamente o carisma na política. Lula e Bolsonaro, cada qual a seu jeito, conseguiram prometer ao povo mais humilde o que eles mais precisam: eu vou resguardar vocês de todo o risco, alguém aqui é capaz de não baixar a guarda por vocês. 

Quando a política brasileira for resgatada por um novo político carismático, capaz de cumprir seu papel sem se restringir a fantoche do novo capital, teremos dado o primeiro passo para todo o resto: a elaboração sistemática de um projeto de nação que resguardará os seus mais humildes da patologia que precede o coronavirus: o espectro da indignidade. 

Dedico este texto a todas as amigas e amigos que desejem um debate de verdade, não reduzido às emoções e clichês impostos pelas ilusões da conjuntura. 

sábado, 4 de abril de 2020

CORONA VÍRUS, DESIGUALDADE E A SOCIEDADE GLOBAL DE RISCO


O momento atual nos obriga à reflexão. Não temos para onde fugir. O mundo está de joelhos diante de um desafio que não conhece bem e tenta mobilizar todos os esforços possíveis para enfrenta-lo. Precisamos recorrer a todas as ideias possíveis, todas ao nosso alcance, que somos capazes de reproduzir, de modo a enfrentar este grande mal que nos assola. O vírus coloca, em certo sentido, todos nós em pé de igualdade, democratiza o medo, nos deixa sem saída e sem saber bem o que pode acontecer em poucas semanas. As análises políticas muitas vezes são rasas, diante de um problema de natureza tão profunda, ainda que apontem algumas medidas práticas viáveis em curto prazo.

Um dos maiores pensadores da atualidade, o sociólogo alemão Ulrich Beck, desenvolveu nos anos de 1980 sua poderosa tese da sociedade de risco. Ela aponta alguns caminhos muito frutíferos para nossa reflexão neste exato momento. Para ele, a sociedade atual, situada no tempo da modernidade desde a década de 1970, pode ser definida como a “segunda modernidade”. Nesta fase, a principal característica do mundo identificada pelo autor é que a produção de riscos seria nosso grande problema, maior até mesmo do que a produção de desigualdades, tese esta que se tornou polêmica por questionar algumas das bases mais profundas da sociologia predominante em todo o século XX. O significado desta tese é profundo e se mostra agora com a pandemia do corona vírus. Posteriormente, Ulrich Beck desenvolveu e sofisticou sua tese, ampliando-a para a compreensão de que vivemos agora em uma sociedade global de risco, na qual alguns riscos transcendem os limites das sociedades nacionais e até mesmo das desigualdades de classe. Não é outra coisa o que o vírus agora nos ensina. Ninguém está livre do risco e é urgente que levemos este recado bem a sério.

Em seu último livro, “A metamorfose do mundo” (Editora Zahar, 2016), ainda pouco conhecido no Brasil, Ulrich Beck avançou com aspectos essenciais de sua tese. Nele, ele chama a atenção para o fato de que a ciência procura muito mais compreender a distribuição e a não distribuição de bens do que de males. Agora se torna fundamental que compreendamos a distribuição global de males e como ela pode nos afetar de maneira geral, mas também diferencialmente. Assim, Ulrich Beck está consciente de que a distribuição de males, na sociedade global de risco, também é uma forma, talvez a mais profunda, de desigualdade. Com isso, a realidade atual é que temos territórios mais vulneráveis do que outros, nações mais vulneráveis do que outras e, o que deveria ser óbvio, classes sociais mais vulneráveis do que outras.

Os crimes cometidos em Mariana e Brumadinho, chamados metaforicamente de tragédias ou desastres, são uma grande evidência da irresponsabilidade e da loucura que rege agora um novo capitalismo sem nenhum limite institucional e moral, sendo este novo capitalismo a base econômica insana da sociedade global de risco. Estes crimes também são uma prova viva da seletividade territorial e social dos riscos. Várias matérias na grande mídia brasileira, na época, mostraram que a empresa responsável pelo crime em Brumadinho sabia exatamente da dimensão do risco e até quantas pessoas iam morrer, algo que passou batido aos nossos olhos, o dia inteiro ocupados com a novela da política.

Outro aspecto essencial do último livro de Ulrich Beck tem a ver com o poder e com o que ele está definindo como “política da invisibilidade”. Com este conceito, ele procura compreender a nova forma de poder predominante na sociedade global de risco, que para ele se resume ao poder de definição do que é risco hoje. De modo simples, o que o autor quer dizer é que nós desconhecemos, enquanto sociedade global, boa parte dos riscos que nos ameaçam e como eles podem realmente nos afetar. No caso do corona vírus, algumas pesquisas sobre vacinas para seu combate já foram publicadas, mas as previsões para a utilização das mesmas e a superação de fato do problema ainda são tímidas.

Indo além, Ulrich Beck procura definir o que seriam hoje “classe de RISCO” e “CLASSE de risco”. O primeiro conceito procura dar conta da diversidade de riscos que nos assolam, para além da nossa vontade e controle (ambientais, virais, políticos). O segundo conceito procura enfatizar a nova forma como as classes sociais podem hoje ser pensadas, ou seja, como classes de risco. Com isso, precisamos enfrentar dois problemas hoje, no Brasil e no mundo: encontrar as melhores formas de se defender do corona vírus e compreender como ele afeta diferencialmente as classes sociais. O primeiro problema tem sido enfrentado a partir da compreensão de que a vida se torna o bem maior a ser preservado. Deveríamos saber sempre disso, mas parece que só agora, quando o mundo se depara com um risco de características inéditas, somos postos diante do espelho que mostra à humanidade como ela é pequena e limitada. Agora a grandeza se resume em assumir a nossa pequenez e tentar agir a partir dela.

Quanto ao primeiro problema, parte da humanidade parece estar se saindo bem, na medida do possível, mesmo apesar de comportamentos distoantes e de intencionalidade suspeita como o do não-presidente da república do Brasil. As forças de ordem maior tender a predominar nesta hora. Não é a primeira vez que a humanidade se depara com tamanho desafio e é possível que fiquemos bem em breve. Em momento de tamanha dificuldade, inédito em sua história recente, a humanidade pode vislumbrar a expectativa de algo maior logo adiante, quando a ciência parece não oferecer todas as respostas.

Quanto ao segundo problema, que diz respeito à forma diferencial como o vírus afeta neste momento e vai afetar ainda mais as classes sociais, precisamos ter sensibilidade. Como pessoas, esta é uma chance para profunda reflexão e para ação. Neste exato momento, as classes médias e altas podem se dar ao luxo de ficar em casa, fazer sua quarentena de boa, ler um livro, colocar alguns assuntos em dia e até mesmo fazer uma reflexão como esta que aqui se apresenta. Não é a realidade das classes populares, e isso deveria ser óbvio, mas não é. Mais da metade da população brasileira se encontra neste exato momento em uma situação de completa vulnerabilidade, sem a certeza de que terá, nos próximos meses, o mínimo para sua sobrevivência.

A atual discussão da renda básica universal e as medidas de implantação da mesma, que surgem agora, enfrentam parcialmente o problema, mas não essencialmente. Um real enfrentamento precisaria repensar as bases profundas de reprodução do capitalismo, como uma ordem global incontornável que nunca produziu justiça social. A quantidade de evidências sobre este fato já é mais do que suficiente, já basta. Quando o Welfare State fracassou nos Estados Unidos e na Europa ficou claro que o capitalismo é um sistema que jamais produzirá justiça social por si mesmo. O verdadeiro enfrentamento da desigualdade, para além da renda básica universal, o que pode ser por si mesmo um bom início, deveria incluir a taxação das grandes riquezas e uma sensibilização por parte das elites na condução do mercado.

Quem está por trás das ações patéticas do não-presidente da república? Como é possível não se sensibilizar com pelo menos metade da população vivendo abaixo de qualquer linha imaginável de dignidade? São questões que exigem respostas de imediato, e o corona vírus aprofunda tais questões. Algumas ações de ajuda social e boa vontade já são vistas emanando da própria sociedade, que apresenta com isso seu lado mais sensível e solidário. São ações louváveis, mas não suficientes. O sistema político e as elites econômicas precisam reagir de maneira sensível e responsável, levar a sério o slogam que sempre evocaram para si, o de conduzir os rumos da humanidade. É muito fácil para a classe empresarial arrogar para si a condição de condutora da sociedade, como tem surgido em pesquisa atual que estou realizando com executivos, ao dizer que gera empregos.

Agora, como nunca antes, a questão não é gerar e manter empregos ou obrigar as pessoas a trabalhar. A questão é como enfrentar o problema da desigualdade, sempre existente, com sua intensificação pelo corona vírus, neste exato momento. Um caminho seria uma atitude mais consciente e sensível por parte da classe empresarial, em todos os níveis, mas principalmente nos andares de cima. Um dos pilares da reforma trabalhista foi exatamente deixar nas mãos “das partes”, empregadores e empregados, a possibilidade legal de negociar o que fazer sobre salários e tempo de trabalho. Vamos ser sensíveis neste momento e aliviar para o lado do trabalhador, adotando medidas de tolerância e de proteção social nos próximos meses, sem simplesmente colocar isso na conta do Estado? Isso seria ser “responsável” pela sociedade, ou seja, que a elite usasse os recursos que tem para proteger os vulneráveis. Mas não é o caso. Presenciamos exatamente o contrário. Vamos mexer no caixa da empresa, como se fosse um investimento, e pensar em um salário para proteger o trabalhador nos próximos meses, ou seja, fazer um investimento no próprio capital humano que será necessário ali na frente? Não, longe disso, vamos por na conta do Estado. Nesta hora predominam o medo e a pequenez humana.

Esta atitude idealista não vai acontecer por que o capitalismo global, há 40 anos, vem construindo uma economia política de “generalização da precariedade”. No plano da vida moral, trata-se de um processo de “institucionalização da indignidade” das condições de trabalho e das relações entre as classes. O fato de não ter um trabalho e de não poder trabalhar, o que se complexifica com o corona vírus, é por si mesmo indigno, ameaçando a capacidade de milhões de pessoas de proverem por si mesmas, para si e suas famílias, o mínimo para sua dignidade. Como dignidade das classes populares, compreendo a possibilidade de ter o mínimo para preservar a vida material e a vida moral. Por outro lado, as elites e as classes médias não podem ser dignas se não agem efetivamente para combater a indignidade dos mais carentes. Recursos financeiros para o enfrentamento do problema existem, precisariam ser utilizados com um pouco mais de humanidade. Um pouquinho mais já seria um bom começo.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O QUE É O ANTI-PETISMO?



Estamos em pleno segundo turno, e as expectativas não são das melhores. A grande massa da população, e especialmente as classes populares, está totalmente imersa no mundo das fake News. A classe média, isolada em sua própria bolha de relações sociais, bem como no Facebook, não tem ideia do que está acontecendo. O principal fato que precisamos compreender, se ainda quisermos ter alguma esperança sobre um Brasil melhor, é a construção do anti-petismo.

Este sentimento que domina avassaladoramente a grande maioria da população brasileira não é simplesmente uma crítica ao PT. Eu não sou nem nunca fui filiado ao PT, logo não tenho interesse direto em sua defesa. Meu partido sempre foi e sempre será a sociologia crítica de qualidade. É em nome dessa que tento escrever. O sentimento anti-petista é, sobretudo, contra o Brasil e principalmente contra os mais pobres. É uma construção que deve ser posta em grande medida na conta da Rede Globo, mas não apenas. Desde a farsa do mensalão, que atribuiu ao PT toda a corrupção intrínseca a todo o capitalismo é que a Globo, refletindo a opinião e a vontade de boa parte de nossa elite, vem construindo sistematicamente o anti-petismo anti-brasileiro. Todo mundo sabe que outros políticos, com motivos muito mais evidentes, deveriam estar na condição que Lula se encontra neste exato momento.  

Depois veio o Golpe etc etc. Não precisamos ser repetitivos aqui. O fato é que hoje Bolsonaro nada de braçadas nesta construção ignorante que vai jogar o Brasil no abismo. Não, não foram simplesmente erros do PT que nos jogaram nisso etc etc. A conversa é bem mais complexa do que a discussão conjuntural sobre partidos, que infelizmente tomou boa parte de nossas forças, nos dividindo entre a candidatura do PT, único partido com capital político suficiente para enfrentar Bolsonaro, e a candidatura de Ciro Gomes, que de repente vira “esquerda”, como se tivesse um grande projeto nacional, como se isso fosse totalmente novo etc etc. Inclusive, espero que agora fique claro quem é esse moço, tirando férias na Europa enquanto o circo pega fogo. Grande ato de patriotismo. Postura semelhante à de FHC e de muitos outros que, posando de centrão, surfando na onda de não participar dos extremos, construídos pela Globo, Veja, Isto É etc, não querem se comprometer com o que está prestes a acontecer e automaticamente abrem mão do Brasil.

O resultado de tudo isso é catastrófico. Bolsonaro é o único político carismático que surge no Brasil depois de Lula, que seria o único capaz de enfrenta-lo. Não, a culpa não é novamente do PT etc etc etc. O que está em jogo não é a autocrítica que o PT deveria fazer, mesmo por que ela agora está sendo feita estrategicamente por Haddad. O buraco é bem mais embaixo. Bolsonaro mobiliza com maestria a moralidade do povo brasileiro da maneira mais maldosa possível. Ele apela para a questão da violência exatamente por que nosso povo está acuado, com medo, sofrendo as mazelas da generalização da precariedade do capitalismo contemporâneo, que afeta principalmente os países periféricos. Eu mesmo já fiz uma análise acadêmica deste tema. A questão da violência, distorcida e minimizada, substitui a questão do enfrentamento da desigualdade, esta que foi a chave moral com a qual Lula conseguiu conversar com a população. Nos dois casos, o contexto global favorece a construção de uma linguagem política nacional. Nós trocamos Obama e Lula por Trump e, espero estar errado, Jair Bolsonaro. É trágico. Faltam forças para continuar escrevendo. Mas precisamos retomar o fôlego e tentar compreender o que está acontecendo.

Todo contexto político necessita de narrativas. A única narrativa política que se construiu no Brasil desde que Lula foi eleito é o anti-petismo. Me apresente outra se alguém a tiver. A tese de que a culpa é do próprio PT é muito frágil. Inclusive, acho triste que colegas inteligentes se apeguem a esta tese. Todo partido ou grupo político comete erros, revê estratégias, precisa compor com um bando de crápulas sangue sugas sem os quais se não se governa em nenhuma democracia moderna. A ciência política tem um nome para isso e se chama “governabilidade”. Basta estudar um pouquinho para entender. Diante da colcha de retalhos que é o cenário político de um país gigantesco como o Brasil, com interesses locais diversos, com investimentos do capital financeiro mandando até o fundo de nossas almas, considero muita tosqueira intelectual por a culpa em um partido e nos seus erros. Não, é preciso compreender a estrutura da política brasileira, sua relação com a estrutura social de nossa desigualdade, bem como o entrelaçamento sistêmico entre tais estruturas e o capitalismo financeiro globalizado. Não, não é tudo culpa do PT.

Diante disso tudo, é preciso compreender o sentido profundo do anti-petismo. Ele é um monólogo, uma narrativa única. Ele nos tirou todo o direito de fala, nos podou do debate, se aproveitou de toda a nossa fragilidade social, que se resume em um apartheid de classe. Não convivemos juntos enquanto classes sociais. Não dialogamos. Sequer temos noção de como os mais pobres estão oprimidos. Observei as pessoas na fila quando fui votar e a constatação é simples: elas não aguentam mais. A precariedade no Brasil é tanta que uma grande parte da população passa fome, é subnutrida, e outra grande parte está bem próxima disso. Este é o Brasil pós Lula e pós PT. Ao mesmo tempo, a ciência social resumiu o debate ao sistema político e à sua lógica intrínseca. Está errado. Simplesmente esquecemos a sociedade. É dela que emana toda a angústia manipulada por Bolsonaro.

Esta parte me dá uma tristeza profunda. Está claro que os mais oprimidos e enganados vão pagar esta conta, e vão pagar muito caro. Até o problema chegar na classe média, preocupada se vamos perder nossos concursos etc, nós já moemos milhões de pessoas, na máquina do capitalismo, como dizia Darcy Ribeiro. Sim, é uma maquina de moer gente o sistema no qual vivemos, e figuras como Trump e Bolsonaro apertam o botão “turbo” desta máquina, simples assim. Não há tempo para ilusões. As declarações nacionalistas do capitão apenas omitem seu entreguismo. A maldade de sua manipulação moral de nosso povo mais oprimido é tanta que mobiliza aquilo que mais toca nas pessoas. Primeiro, a questão da segurança, depois a da família. Aqui também precisamos parar e fazer uma análise.
A linguagem pós-materialista, defensora dos direitos humanos, da liberdade sexual, da tolerância racial e religiosa, tão importante para o avanço moral do mundo, não diz absolutamente nada a grande massa das classes populares. E não, não é por que as pessoas são burras. É por um fato muito simples. Estas pessoas ainda estão imersas em suas preocupações materiais mais imediatas. Dai o fato de a linguagem do combate a violência e do fortalecimento da família estabelecer um elo inquebrantável entre o capitão e o povo. Sim, ele sabe muito bem o que está fazendo. E nós, intelectuais, classe média, etc, ficamos dando com os burros n’água, perdendo tempo decidindo entre PT e Ciro. Quem continua incomodando é o PT. Do contrário, não existiria o monólogo da narrativa anti-petista. Sim, é a única linguagem, a do capitão, que agora adestra com maestria seu exército. A lógica do exército é obedecer, burocraticamente, sem questionamento, roboticamente, sem reflexão, como no filme Tropa de Elite. É ir pra guerra e confiar em seu capitão. A metáfora não poderia ser melhor e pena que não é só metáfora, é a vida real da maioria da população brasileira que, neste exato momento, cegamente, obedientemente, como um bom exército, confia em seu capitão e em suas táticas. O capitão Nascimento, aquele da ficção, que foi estimulado em todos nós pelo pseudo crítico filme Tropa de Elite, agora é real, saiu das telinhas, deixou de ser brincadeira. Sim, nunca foi brincadeira. Não se brinca com o sentimento das pessoas. Aliás, se brinca sim, e o capitão sabe fazer isso muito bem. Como na guerra, todo mundo sabe que os soldados morrem primeiro, põem seus corpos no front de batalha para proteger o capitão, que monta suas táticas e vai muito bem, obrigado.

Entretanto, uma diferença crucial entre a metáfora do exército e a situação atual do povo brasileiro é que, de alguma forma, o soldado na guerra é motivado por valores e sabe que pode morrer. Nosso povo está acreditando no contrário. Infelizmente, países de modernidade periférica e profunda desigualdade estrutural como o Brasil tendem a possuir um imaginário salvacionista em relação aos seus políticos. Dai a raiva de Lula e o descrédito com ele, a decepção, por achar que o presidente resolveria todos os problemas do mundo. Não, isso não é real. Um presidente e seu partido, por mais de esquerda que seja, faz o que pode diante de forças antagônicas que regem a sociedade, seus recursos materiais e simbólicos. Não, nem o bem-intencionado Boulos salvaria o Brasil com uma penada, por que isso não é real. É um mundo de fábulas. O mundo da vida real é regido por forças em conflito, interesses distintos, e precisa lidar com eles. É exatamente o que um candidato moderado poderia fazer neste exato momento, se o povo não estivesse mais uma vez iludido com o nosso imaginário salvacionista, maldosamente mobilizado pelo capitão. Não por acaso, as soluções dele são como um passe de mágica. Um presidente de pulso forte vai combater o crime. Como o capitão Nascimento, como a tropa de elite. Mas não, na política não é assim. Como muito bem definiu o grande Michel Foucault, a política é a guerra por outros meios. Logo, é preciso diálogo, manejo, reflexão, trânsito entre os vários grupos políticos, ou seja, o que um candidato moderado poderia fazer.

Mas seria pedir demais ao nosso povo para fazer esta reflexão. O povo perdeu a paciência, e com toda a razão. Também seria um grande equívoco culpar o povo por isso. Não, não é assim, e existe sim um culpado. A situação tem que ser posta na conta da elite nacional, insensível, entreguista, antipatriota. E também em grande medida na conta da parte da classe média bate-panela, que, depois do povo, também vai pagar, aliás, de forma sadomasoquista já vem pagando desde o golpe, que poupou apenas a elite.
Não, isto não é senso comum do sociólogo chateado em seu desabafo. Não me apego ao fetiche de teorias mega abstratas, tanto na economia quanto na sociologia. Me apego aos autores que conseguiram me explicar com clareza o mundo no qual vivo, como tento agora fazer neste texto. Dentre eles, o que mais me ensinou nos últimos anos foi o norte-americano Wright Mills. Este grande pensador dedicou um de seus grandes livros ao que definiu como a elite do poder. Em resumo, ele percebeu, já nos Estados Unidos dos anos de 1950, que a elite são aquelas pessoas que ocupam os principais postos nas principais instituições do Estado, do mercado e, especialmente naquele momento, do exército. Atualizando para o Brasil, precisamos incluir aqui a mídia e o campo jurídico. Por ocuparem tais posições privilegiada de poder, estas pessoas tomam decisões que afetam todo o restante da população. Como não tem limites em sua ação, se tornam pessoas mimadas, narcísicas, sem caráter, salvo raras exceções que não se contaminam pela moralidade ou melhor, pela imoralidade corrupta das altas rodas, como explicou Wright Mills, que naturalizam o sistema, como fica claro em falas de vários empresários enjaulados pela farsa da lava-jato. Não, não se trata apenas de um partido. Uma leitura atenta do grande Wright Mills, que eu não teria espaço para reproduzir aqui, deixa claro que não se trata de Brasil ou América Latina, mas sim da natureza moderna de qualquer elite capitalista. Não, não é senso comum, é a análise de um dos maiores sociólogos que o mundo já teve.

Por fim, uma palavra de alento. Ainda não acabou, e temos alguma chance de virar este jogo. É preciso diálogo com tolerância, sem agressões. Nenhum vínculo afetivo, família ou amizade, deveria se esfacelar com o canto da sereia do capitão. É preciso que conversemos com as pessoas, principalmente as indecisas, sobre o projeto econômico obscuro do capitão. Não se trata apenas dos direitos das relações homoafetivas, negros, mulheres e etc. O buraco é mais embaixo. O capitão não gosta da classe trabalhadora. Como no Titanic, conduz o navio para a tragédia, contendo a bordo apenas um bote salva vidas para a elite, enquanto a maioria dos tripulantes segue inebriada com a música de fundo. O projeto obscuro, escondido pelo apelo cruel aos sentimentos mais profundos do brasileiro envolve um aprofundamento do governo Temer, a não reversão da reforma trabalhista, que deixa o trabalhador totalmente vulnerável diante do patrão, uma reforma da previdência que não beneficiará os trabalhadores, o aumento de facilidades para os grandes grupos empresariais e também as privatizações, ainda que ele ande confundindo a população quanto a este ponto.

Se a história tomar mesmo o rumo que parece estar tomando, só nos restará a resistência, inteligente, com música e poesia. Sim, muita poesia, arte, amor e sensibilidade que parece ser o que está faltando neste mundo. Mas também com atitudes políticas inteligentes, resistência tática, movimentos sociais que não joguem a toalha diante de um mal maior que parece nos afligir. A reação terá que vir do espírito, de dentro, do fundo da alma. A história, esta nossa grande incógnita, parece nos enganar as vezes, mas ela mesma apresenta uma luz no fim do túnel. Não dá pra achar que as forças progressistas ganharão sempre. Mas também não podemos titubear e entregar-nos ao mal, sem resistência. Muita força nesta hora, é o que desejo a todas as brasileiras e brasileiros. No fim, só resta o pensamento livre. Haddad haver uma alternativa, para não Jair nos acostumando com o que há de pior.





sexta-feira, 13 de abril de 2018

O MECANISMO DE DISTORÇÃO DA VERDADE NO BRASIL


A série “O mecanismo”, de José Padilha, que está bombando na Netflix, é um perfeito exemplo de como se distorce sistematicamente a verdade sobre o Brasil, tanto na academia quanto na arte, operando-se uma perfeita divisão do trabalho. Vou reconstruir um breve histórico deste conhecido cineasta, para que possamos entender o que esta série realmente representa.
Desde o seu documentário “Ônibus 174” (2002), sobre o conhecido episódio envolvendo o garoto de rua protagonista da tragédia, que Padilha não me convence. Quem quiser ter acesso a uma análise realmente crítica deste episódio pode assistir ao filme “Última parada 174” (2008), de Bruno Barreto que, apesar de ser uma ficção, e não um documentário, como fez Padilha, tematiza de fato o que aconteceu na história de vida do menino Sandro. Primeira lição a se aprender: nem sempre um documentário é crítico.
Neste belíssimo filme, Bruno Barreto deixa claro, com fineza sociológica rara, as razões que levaram o menino Sandro a se tornar um adulto tolo e protagonizar a tragédia do referido ônibus. Não recontarei a história, pois é bem conhecida. A análise do filme, baseado em fatos reais, mostra com clareza a história de vida do menino: sua mãe, uma batalhadora dona de um bar na comunidade em que moravam, é assassinada brutalmente durante um assalto em sua presença. O menino começa a vagar, não pára na casa de nenhum parente e, sem destino, enlouquece e vai morar nas ruas do Rio de Janeiro. Paralelamente, o filme mostra a vida de um outro menino Sandro, da mesma idade que, criado por um traficante, desenvolve todas as disposições e a inteligência necessária para o crime. Contrário a ele, o Sandro do ônibus se torna um garoto de rua que é essencialmente um tolo. Esta é a moral da história: um garoto de rua não tem metade da sagacidade de um traficante, e o seu destino é ficar vagando e cometendo pequenos delitos no centro da cidade. Ou seja: o garoto de rua é um exemplo perfeito do que o abandono social pode causar a uma pessoa. Quando esta pessoa comete algum delito que afeta a “boa sociedade”, logo ficamos apavorados.
Moral da história: é assim que se usa a arte para se tematizar criticamente as razões dos problemas sociais. É preciso que se mostre claramente, sem ambiguidades e floreios, a origem real dos problemas, como faz o filme. É preciso que se tenha uma didática clara e direta para o público. Esta certamente não é a marca de Padilha. Já no primeiro “Tropa de Elite”, baseado em livro de relatos escrito por Luiz Eduardo Soares e parceiros, ele deixa ainda mais claro a que veio. A trama do filme é simples: apenas uma tropa muito bem treinada para uma guerra, com razões morais que motivam seus membros a darem sua vida pela causa, pode enfrentar o crime no Brasil. A velha tese acadêmica de que a desigualdade no Brasil é uma questão de polícia não podia ser melhor requentada e apresentada ao público como distração.
Em resumo, a questão central do filme, reforçada por sua estética, é que uma tropa de homens bons e honestos vai enfrentar o crime para salvar a boa sociedade. O sentimento mobilizado pela estética do filme é a vontade de ver o crime exterminado a qualquer custo. Por isso não é crítico. A arte tem o poder de mobilizar imediatamente os corações das pessoas. Por isso, deve ir direto ao ponto. Em nenhum momento o filme questiona o fato central de nossa desigualdade, que tem a ver diretamente com a violência no Brasil: o fato de que homens moralmente desqualificados e excluídos de outras possibilidades de trabalho distinto vão encontrar no batalhão sua única chance de receber algum prestígio e status. Para tanto, o preço é matar muitas vezes um primo ou irmão, do outro lado do front da batalha (há relatos verídicos sobre isso), para com isso defender a classe média e a elite da violência mais imediata do cotidiano.
Novamente, fica a sugestão: para quem quiser ver um filme realmente crítico sobre o drama da guerra e de como ela destrói a alma dos envolvidos, basta ver o belíssimo “Nascido para matar” de Stanley Kubrik. Este sim, tematiza como o treinamento indigno, apenas caricaturado no Tropa de elite que “mostra”, mas não “analisa”, mobiliza os sentimentos e valores dos envolvidos. No filme, um dos soldados, que não tinha preparo físico e emocional para o treinamento, como muitos não tem, acaba se apaixonando pela própria arma, e no final aniquila seu treinador, que era seu algoz.
No Tropa de Elite 2, nosso querido cineasta vai ainda mais longe. Como o próprio sub-título do filme sugere, “O inimigo agora é outro”. O já consagrado herói nacional, Capitão Nascimento, agora “cai para cima” e vai trabalhar na inteligência do combate ao crime. Descobre logo de cara o “sistema”. Moral da história: a polícia deve combater a política. Uma análise que fiz na época sobre o Tropa 2 pode ser lida aqui: http://eduem.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/viewFile/11629/6704.
Mais uma vez, o filme tem uma onda crítica. Aqui não podemos confundir o uso dos fatos com a capacidade crítica da arte, pois é exatamente o que ocorre agora no “Mecanismo”. Não por acaso, o Tropa 2 é lançado em pleno início de segundo turno das eleições para presidência, em 2010, na qual Dilma venceu Serra. Um dado ingênuo: a última cena do Tropa 2 é uma imagem sobrevoando o palácio do planalto. O tema do filme, adivinhem: combate a corrupção, que neste caso é só no Estado.
Por fim, temos agora o “Tropa de Elite 3”, pois não se trata de outra coisa esta série “O Mecanismo”. O inimigo continua o mesmo: a política em si e todos os políticos, pois todos são corruptos. Este é o discurso adotado pelo diretor. Não por acaso, a série se atualiza em alguns aspectos: agora o problema do Brasil é mais complexo e apenas a casta jurídica, isenta, pode enfrentar a corrupção, “nosso câncer”, como é enfatizado na série. A estética é a mesma: o combate ao crime organizado, de colarinho branco. A polícia, mais inteligente, preparada, séria e isenta: a federal. Temos alguma esperança: algumas pessoas de bem ainda acreditam na guerra contra os criminosos. Falta apenas falar de um detalhe nesta história toda: a política corrupta é apenas a ponta do iceberg de um “sistema” um pouquinho maior...Só não posso garantir ao leitor que uma série realmente crítica sobre ele passará na Netflix.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

BRASIL, 2018: O QUE FAZER?


Faz tempo que venho pensando em escrever um texto sobre a situação brasileira atual. Tenho me perguntado o que há realmente de novo na novela que temos presenciado. Somos bombardeados cotidianamente por uma quantidade de informações, verdadeiras e falsas, que mal damos conta de ler. Estamos acelerados, como muito bem analisou o sociólogo alemão Hartmut Rosa. A dinâmica do Whats App, nos sufoca todos os dias com uma série de informações que mal damos conta de absorver. Desnecessário dizer que, assim como muitos de nós, já abandonei a leitura de alguns canais da mídia oficial faz tempo. Desde o episódio inicial da novela envolvendo Joesley Batista e Michel Temer, tomei um nojo profundo e irreversível do jornal o Globo. Dizer isso não é muita novidade, mas pelo menos me permite compartilhar um sentimento que tenho certeza ser de muitos.

Tudo isso é um sintoma de que devemos ser cada vez mais seletivos. Existe hoje uma meia dúzia de revistas e blogs de esquerda que ainda merecem ser lidos. Articulado a isso, devemos ter cautela com uma distorção sistemática da realidade que se opera neste exato momento de forma muito sutil. Alguns escritos da escola de Frankfurt sobre a indústria cultural nos ensinam a compreender como este mecanismo funciona. A mídia oficial trata de todos os temas importantes da realidade de forma pseudo-crítica. Ela cria uma estética banalizante, grotesca e caricatural das questões que realmente importam. Seus executivos não dormem. Isso não é especificidade do Brasil. A bela análise de Adorno e Horkheimer sobre a indústria cultural e a sociedade de massas estão em consonância com a análise de Wright Mills, em seu grandioso livro “A elite do poder”, escrito nos anos 50.

Nesta obra magnífica, esquecida entre nós, Mills também analisa, brilhantemente, o fenômeno da sociedade de massas, sem o qual não se compreende o poder ilimitado alcançado pela elite no capitalismo americano, símbolo do que viria a ser o paradigma da realidade capitalista em todo o mundo pós-segunda guerra mundial. Para ele, o poder, o prestígio e o status ilimitado da elite americana, que naquele momento se encontra ocupando os mais altos postos institucionais do Estado, do mercado e da esfera militar, algo de dimensões inéditas na história, só se explica pela desconexão total entre a vida isolada desta elite e a vida comum das classes populares. Esta desconexão completa entre dois mundos sociais totalmente distintos, ou seja, a realidade das “altas rodas” das elites, escondidas em seus restritos milieus sociais, e a vida comum da massa, possui para o autor uma série de razões. A classe média, enquanto isso, vive no meio destes dois mundos, horrorizada pela possibilidade de ficar presa na parte de baixo desta sociedade do tipo “Titanic social”, ao mesmo tempo em que sofre sistematicamente o desprezo da elite, que nunca a aceita em seus círculos restritos. A análise desta tragédia existencial da classe média foi magistralmente analisada por Mills em seu livro anterior, não menos instigante, o White Collar (em português, “A nova classe média”), no qual percebe a ambivalência sociológica e psicológica (como diria Robert Merton) de uma classe média que emerge principalmente pela instrução formal.

O nó da questão, para Mills, nestes seus dois grandes livros, não é meramente descrever o fato empírico do surgimento de uma nova estratificação social nos Estados Unidos. O que está em jogo aqui é o surgimento de uma nova sociedade que possui uma cultura específica, resumida nos termos do autor como sendo forjada a partir de uma “psicologia social das elites”. Para ele, as elites não possuem apenas interesses políticos e econômicos em comum, mas também, e isso parece o mais importante de tudo, uma afinidade afetiva e psicológica. Este tema, inclusive, preocupou todos os grandes sociólogos e escolas sociológicas da geração de Mills. Basta dar uma olhada rápida nas principais obras e autores das Escolas de Frankfurt e Chicago, bem como do funcionalismo estrutural. Apenas Mills, entretanto, colocou o tema em termos claros e incisivos em relação às classes sociais. A grande sacada do autor, nesta direção, foi perceber que a unidade afetiva das elites faz com que seus membros se percebam e atuem como parceiros impessoais na tarefa, auto-atribuída, de dominação e condução do mundo. Não é outra coisa que se confirma, por exemplo, lendo a biografia de um Marcelo Odebrecht.

A principal lição que extraímos destes dois livros de Mills é a seguinte: a cultura capitalista construiu a sua própria narrativa de mundo, prometendo a todas as pessoas um horizonte e um destino a se perseguir. O fio condutor dos dois livros é que a busca incessante, vazia existencialmente e insana por poder, prestígio e status se constitui como a grande meta moral da vida capitalista, incorporada e exemplificada principalmente por suas elites e imitada de perto pela classe média. Um aspecto decisivo desta análise se encontra no fato de que o mundo das celebridades, ao qual Mills dedica um dos capítulos mais impressionantes de seu “Elite do poder”, exerce a função sistemática na mídia de parecer ser o mundo dos ricos, enquanto o verdadeiro mundo destes, no qual todas as decisões que influenciam na vida de milhões de pessoas são tomadas, nunca é apresentado de fato ao grande público. Qualquer semelhança com a rede Globo e com a estética da Netflix, mundialmente difundida, não é mera coincidência.

Por fim, Wright Mills encerra este grandioso livro com uma análise da “alta imoralidade” que corrompe todos os círculos das altas rodas, nos conduzindo a uma leitura sobre os Estados Unidos dos anos 50 que mais parece o Brasil em 2018. Nesta, deixa claro que a corrupção não é peculiaridade da cultura dos países latino-americanos, mas sim um traço inerente de toda a cultura capitalista, a começar pelos Estados Unidos, que naquele momento se apresenta como vanguarda desta cultura universal. A alta imoralidade das elites, neste sentido, significa a predominância de um espírito iletrado e a dominação de homens cuja motivação única é a busca pelo poder e pelo dinheiro. Qualquer semelhança com o Brasil atual não é mera coincidência, nem especificidade nossa.

No Brasil, Jessé Souza vem realizando com muita propriedade uma análise semelhante, tanto sobre a imoralidade de nossas elites quanto sobre a submissão interesseira da classe média, articulada à primeira, considerando, entretanto, as especificidades do Brasil atual, diante deste cenário maior da cultura capitalista. Não por acaso, seu atual livro “A elite do atraso” já é um best-seller, por razões evidentes. Neste, Souza identifica com maestria a origem de nossa elite de rapina na cultura da escravidão, aquela mesma que Joaquim Nabuco em seu tempo descreveu como a principal marca da alma brasileira, antecipando várias teses de Gilberto Freyre, cinquenta anos antes da publicação de Casa Grande & Senzala. Desde seu premiado livro anterior, “A radiografia do golpe”, Souza tem mostrado com precisão como um grande acordo de nossas elites, incluindo o mercado, o Estado a mídia e o judiciário deu o tom para a constituição da crise brasileira atual, posta na conta do PT. Em seu livro atual, ele vai além e procura mostrar como a nossa elite do atraso possui uma lógica própria pelo menos desde a década de 30, tendo como traço comum o fato de sempre conseguir elaborar um grande acordo, incluindo a classe média comprada e submissa, contra as classes populares, mantendo em poucas mãos o domínio das instituições e de todos os recursos materiais e simbólicos necessários para a manutenção intacta de nossa desigualdade. Qualquer semelhança com o cenário norte-americano descrito por Wright Mills nos anos 50 não é, infelizmente, mera coincidência.

Diante disso, o que esperar do Brasil em 2018? Escrevo este texto antes do julgamento de Lula, marcado para o final de janeiro, provavelmente o capítulo final de nossa “House of cards” tupiniquim. Se ele será condenado ou não, em certo sentido, não faz diferença para esta reflexão. O legado de esquerda representado por ele, apesar de todas as críticas positivas que sempre recebeu e a despeito de todas as críticas negativas e desnecessárias, precisa sobreviver, independente do amor ou ódio que tenhamos à sua figura. Não é o Lula quem realmente precisa vencer as eleições, o que não significa que eu não deseje isso, mas sim o legado de esquerda que por muito tempo ele representou. Assim como muita gente sensata, não desejo sua condenação por razões que têm sido exaustivamente discutidas entre nós. Sabemos que não é justa. Sabemos que é fruto da loucura das elites descrita por Mills. Sabemos que é fruto do poder ilimitado adquirido por elas, não apenas no Brasil, mas em todo o capitalismo. Sabemos que uma elite internacional, dona do capital financeiro, ainda mais aperfeiçoada em seus mecanismos de dominação do que aquela que Wright Mills viu em vida, dita hoje o tom das coisas dentro da política nacional. Mas o que está em jogo aqui não é apenas saber das coisas. Está em jogo algo mais importante, que é a manutenção de um sentimento de esquerda. Tornou-se muito comum entre nós hoje a crítica interna a esquerda, nem sempre bem intencionada. Não basta dizer onde erramos. É preciso coragem para pensar, se posicionar com respeito a opiniões alheias e simplesmente se assumir como de esquerda.

Não estou pensando aqui simplesmente na unificação de partidos. Caso Lula não concorra, algum candidato terá que herdar o seu lugar, de seu partido ou não, mas não deverá fazer isso sozinho. Deverá representar, ao lado de milhões de pessoas de esquerda, muitas delas sendo aquelas que foram às ruas desde 2013, um verdadeiro espírito de esquerda. É este que poderá manter acesa a chama da esperança para a retomada da reconstrução de nosso Estado democrático de direito e de bem-estar social. Para grandes teóricos como T. Marshall e Robert Castel, em momentos distintos da história, este foi o único caminho para a construção de sociedades igualitárias, com exceção de experiências diretamente socialistas como a de Cuba, um país pequeno, cuja história e complexidade não se podem comparar com a brasileira.

O espírito de esquerda, assim, independente do vulto de pessoas que formalmente o representam, precisa prevalecer ao desespero e à adesão afetiva à triste figura de Bolsonaro. Mais uma vez, não se trata de especificidade brasileira. Os teóricos da primeira geração da escola de Frankfurt, como Adorno e Horkheimer, já se preocupavam com a “personalidade autoritária”, cuja adesão, ao mesmo tempo afetiva, “psicológica” e “racional”, interesseira, como brilhantemente explica adorno em um pequeno texto chamado “Observações sobre política e neurose”, não explica apenas a adesão a Hitler, mas também a Donald Trump nos dias de hoje e a muitos outros na história. No Brasil, o machismo e a memória militarista são apenas um tempero maligno neste tipo de “psicologia social das massas”, que expressa muito mais uma impaciência política e uma ausência de reflexão do que a sustentação de um projeto de nação para todos.


Se o espírito de esquerda vai prevalecer, não sabemos. O fato é que este ano promete. A melhor postura, diante de tudo, talvez seja a busca ainda mais profunda pela reflexão, pela tolerância, pelo respeito e pelo convívio afetuoso. Sim, estas são virtudes necessárias na esfera pública e na política. Inclusive, elas podem ser bons temperos na construção de um espírito de esquerda. Uma boa consequência disso pode ser uma decisão serena nas urnas. Que assim  seja!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Nova classe no Velho mundo

Recentemente, o sociólogo Jessé Souza, da Universidade Federal de Juiz de Fora, junto com colaboradores, lançou um livro intitulado 'Os Batalhadores Brasileiros - nova classe média ou nova classe trabalhadora, pela editora da UFMG. Nele, os pesquisadores apresentam o resultado de uma pesquisa sobre uma fração crescente da sociedade brasileira, que não é nem a ralé estrutural desempregada, nem a classe média tradicional, ocupada em profissões liberais. Esta fatia da população, heterogenea e crescente nos últimos dez anos no Brasil, já tem sido definida por intelectuais brasileiros como uma 'nova classe média', ou 'classe C', em termos economicos. Após pesquisa realizada nas cinco regiões brasileiras com vários perfis desta parte da população, como feirantes, profissionais do telemarketing, pequenos comerciantes urbanos formais e informais, bem como pequenos produtores rurais, o grupo convencionou definir tal fração social como uma 'nova classe trabalhadora', e chamá-la pelo nome que a própria sociedade a confere, ou seja, como 'batalhadores'.

Estas pessoas se definem por uma ética do trabalho duro e pela origem geralmente de família pobre, com pouco ou nenhum estudo formal, porém portando algum saber prático para o trabalho, geralmente aprendido na família. O discurso liberal na esfera pública brasileira já se apropria do crescimento desta nova classe para legitimar o crescimento economico do Brasil no cenário mundial da última década. Entretanto, a mesma pesquisa mostra que a vida dura levada por tais pessoas, ainda que adiram a certos estilos de vida e consumo típicos de classe média, aponta para uma instabilidade social pouco alterada pelo crescimento economico brasileiro.

Esta nova classe trabalhadora não é homogenea como a antiga classe trabalhadora do fordista, encontrada facilmente dentro das fábricas e indústrias. Atualmente, o capitalismo é cada vez mais informatizado e informalizado, o que faz crescer suas frações fora da fábrica, através da terceirização de mão de obra e da iniciativa de pequenos empreendimentos por parte de batalhadores que apresentam capacidade prática e inteligencia para o trabalho autonomo. A informalidade não é novidade em países da periferia do capitalismo, como Brasil e México. Atualmente, porém, ela cresce em quantidade e em significado. A nova classe trabalhadora é um fenomeno mundial, não apenas periférico, atualmente.

Em Freiburg, cidade pequena do sul da Alemanha, pude ver parte dela principalmente em dezembro, quando é montada uma feira de pequenos comércios no centro da cidade, na qual pode-se ver a produção artesanal e a comercialização de produtos alimentícios diversos, a maioria típicos da região, bem como a produção de artesanatos do vestuário, dentre outros.

Também na Alsácia, território frances, pode-se ver o mesmo fenomeno, em feira um pouco maiores e mais heterogeneas, nas quais os trabalhadores geralmente são famílias que possuem uma íntima relação com seu produto, desde sua origem como sua especificidade. A questão interessante que mereceria uma investigação melhor é em que medida a nova classe trabalhadora no velho mundo difere em qualidade de vida e em estabilidade social e política da nova classe trabalhadora na periferia, cuja citada pesquisa já apontou para uma estabilidade social relativa, em tempos de instabilidade economica, ainda que se celebre o crescimento economico do Brasil como Estado nacional.

Crescimento economico não significa desenvolvimento social, e ainda não é possível afirmar que, mesmo diante do argumento de um certo declínio da economia européia, a qualidade de vida por aqui tenha decaído. A primeira impressão por aqui, que pode estar equivocada, é a de que toda família tem dignidade e qualidade de vida, o que se define por condições básicas de moradia, alimentação e estudos para os filhos, algo que os batalhadores na periferia ainda estão buscando as duras penas. Qualquer comparação do tipo precisa considerar a diferença entre condição economica e qualidade de vida.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Meu casaco de europeu

Num belo dia, vc percebe que não é mais criança. Que seus passos são um pouco mais firmes. Que já não pode ter mais medo de certas coisas. Quando eu visto meu casaco negro, tudo se transforma. Não se brinca com estética no velho mundo. O feminismo causou alguns estragos aqui. Salvo as evidentes transformações na hierarquia entre os generos e a inserção crescente das mulheres em melhores lugares na dimensão da produção, o que resta é estranho.

Como o mundo não é divido em nações, mas em classes, é apenas uma questão de tempo que certos comportamentos pós-vanguarda 68 se tornem padrão em um país como o Brasil. A classe média das grandes capitais brasileiras já se torna suporte deles. As cores cinzentas, típicas de civilizações que vivem a maior parte de seu tempo no frio, como percebeu há tempo Gilberto Freyre, não impede que as pessoas aqui tenham sentimentos e emoções fortes. É possível sentir o calor humano no frio. É preciso se proteger do frio, mas não do calor das pessoas.

Entretanto, todos temos nossas avaliações sobre os outros. Alguns mitos do nacionalismo metodológico dominante nas ciencias sociais começam a cair por terra, quando observamos com calma a rotina e o comportamento do povo alemão. Numa cidade pequena como Freiburg, há pessoas de várias origens culturais. O contato inter cultural inicial suscita algumas questões curiosas. É difícil não ser identificado com o samba quando se diz que se é do Rio de Janeiro. Logo, visto meu casaco de europeu. Eles também sambam, ainda que com muita roupa, e eu gosto de rock.

Outro dia alguém me pediu pra tocar um beatles no violão, e depois 'garota de ipanema'. Fiquei devendo a segunda e não faço questão de pagar. Este nacionalismo não vale a pena. Apenas representa a elite tupiniquim em todo o seu particularismo. Logo, visto meu casaco de europeu.

No contato entre os generos, talvez consigamos enxergar ainda mais certos mitos. A sexualidade brasileira é exaltada como mais despojada e feliz. Prato cheio para o estigma da animalidade. Não é difícil ver por aqui a animalidade humana em sua dimensão mais primitiva, a do amor, em plena evidencia. Entretanto, um dos mitos do nacionalismo nos diz que isso é peculiaridade dos trópicos. Logo, visto meu casaco de europeu.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

ATO 1 - parte 2

as vezes é preciso por um freio em si mesmo.
não se pode desafiar a si próprio.

as vezes, é preciso aceitar que seu maior inimigo é vc.
que vc nunca descobrirá seus próprios limites.
que nunca vencerá todas as dificuldades.

que uma parte de vc sempre negará tudo o que vc faz.
que vários tempos habitam em vc.

aquele rosto sem barba ainda expressava a ausencia da verdade.

- conhecereis a verdade, e ela vos libertará.

- eu disse que não ia funcionar.

- o que importa é vc.

anos depois.

- eu quase morri. pelos cantos. por voce. quando te perdi, me entregava a todos como se fossem vc.

- não sabe como é difícil ouvir isso.

- como eu queria que fosse o primeiro.

as duas rodas conduziam aquele momento da vida.

girando, como a vida, em momentos.

a roupa de academia definia a mesma beleza.

o carro velho amigo.

conduziu ao que não aconteceu.

o apartamento estranho, aquelas bebidas, tudo novo demais.

- vc me despertou. eu me dou bem com ele. mas vc...

inimigo dos penteados, amigo da vaidade, sem jeito com ambos.
entonar a voz é algo que passa.

a imagem foi melhor do que a imaginação.




terça-feira, 14 de dezembro de 2010

ATO 1 - parte 1

num belo dia, voce percebe que o tempo está passando

e que ele te controlou mais do que vc a ele.

aquele cabelo molhado, encaracolado, com cheiro de creme barato,

aquela pele de adolescente, o vestido de tecido barato, porém bem costurado.

- onde está meu livro / interrogação /.

- molhou.

- como / /

um sorriso sacana, inocente, o mesmo de sempre.

as paredes da sacristia ainda são as mesmas.

testemunhas mudas do sentimento de outrora.

aquela voz sempre foi única.

- vc estuda engraçado.

- ah é, sei lá.

o batismo seria o começo de tudo, mas não foi.

um dia especial. água fria em espírito quente. e como fervia.

algum tempo depois - 'sinto o sangue ferver, mais quente do que antes'

'sinto a veia pulsar, mais forte que outrora'.

o poder mostrou seu local no poder local.

a outra força se foi.

o computador quebrado, agora, não é mais do que a vida.

- vc é um rapaz zeloso.

- levamos culpa sem vantagem.

o espírito não era menos ébrio do que agora.

ainda que o corpo fosse mais puro.

-fiquem tranquilos, eu trarei comida p vcs.

- deus te abençoe, não temos como agradecer.

- agradeçam a ele.

o onibus velho daquela velha cidade foi o palco.

um toque de mãos e corações cheios.

os mesmos que o tempo, dono da história, haveria de esvaziar.

várias caminhadas pelo mesmo lugar.

não chegaram mesmo ao lugar.

- ele sempre sentava ao seu lado.

- ai que raiva.



quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O QUE É DEMOCRACIA NO BRASIL DE 2010?

Os tucanos falam em democracia o tempo inteiro. Na reta final, tentam desesperadamente associar a imagem do PT e principalmente de Dilma ao autoritarismo. Estranho isso. Nos faz refletir sobre um dos conceitos mais primários das ciências sociais. Então, vejamos o que seria a democracia no Brasil de 2010.

Se alguém evoca com veemência um dos valores fundadores do ocidente, é preciso observar quais são as práticas e a visão de mundo desta pessoa ou deste grupo para ver se são coerentes com os valores que afirmam defender. De modo simples, no pensamento moderno qualquer prática que se diga democrática deve se apresentar como contrária a qualquer comportamento que pareça autoritário.

Na antiga democracia grega, este conceito não era sinônimo de igualdade política e social. Remetia-se a um formalismo de enfrentamento e discussões nos quais não participavam os escravos, considerados naturalmente como gente inferior. Estes não eram, neste sentido, cidadãos, pois não participavam das decisões da cidade. No contexto dos Estados nacionais modernos, sob o qual vivemos, a idéia de democracia e o esforço em se criar instituições coerentes com ela foram ampliados. Democracia hoje significa igualdade política e social, o que naturalmente pressupõe igualdade econômica, exatamente o que faltava para que a democracia grega fosse perfeita e o que supostamente colocaria a democracia moderna como superior a antiga.

Curioso isso. Os tucanos atuais no Brasil, pseudos-baluartes da democracia, que falam em união e paz o tempo todo, não apresentam a igualdade econômica como prioridade em seus discursos, e muito menos em suas práticas partidárias e programas de governo. Que idéia de democracia é essa? O projeto político e o discurso partidário do PT, por outro lado, tem como prioridade a redistribuição sistemática de renda e o amparo econômico às classes populares. A IGUALDADE ECONÔMICA É PRIORIDADE PARA O PT. Logo, devemos desconfiar da tentativa de associação da imagem deste partido com o autoritarismo.

Por isso, em vésperas da eleição mais acirrada no Brasil desde a re-abertura democrática, devemos pensar bem em o que é ser democrático e o que é ser autoritário na realidade brasileira atual. O discurso pseudo-democrático do PSDB é abstrato, pois só fala em desenvolvimento econômico o tempo inteiro, sem enfrentar a questão básica de como este desenvolvimento deve lidar com a questão da injustiça social no Brasil, ou seja, sua desigualdade econômica. Neste aspecto, é semelhante ao ideal de democracia grega, praticado apenas por quem era considerado cidadão, e estes eram os que tinham superioridade econômica, ou seja, não eram os escravos.

É assim que o PSDB vê e trata as classes populares no Brasil, ou seja, não as considera sistematicamente, não as coloca como prioridade na ação do Estado. Acusam o PT de ser autoritário exatamente por fazer isso. Logo, fica fácil deduzir qual ideal de governo é realmente democrático e sinônimo de igualdade política, social e econômica. Pensando e agindo desta maneira, os governos tucanos sempre trataram as classes populares como sub-cidadãos, exatamente como se fazia com os escravos na Grécia antiga.

Na verdade, o que está por trás do maldoso discurso contra o PT, de que a distribuição de renda, o que não significa tirar de quem tem, mas usar o Estado para reparar desigualdades históricas, associando o PT a uma idéia de autoritarismo, é o egoísmo de classes privilegiadas que prioriza a manutenção de uma sociedade meritocrática e, logo, desigual. Não por acaso as privatizações, marca registrada dos tucanos, são sempre uma prioridade neste ideal de desenvolvimento. O ideal democrático deles é entregar os recursos nacionais nas mãos do mercado, a principal instituição moderna geradora de desigualdade. Assim, a pergunta que não se deve nunca calar, considerando que democracia deveria ser sinônimo de igualdade em todos os aspectos da vida, é a seguinte: quem defende a democracia no Brasil de 2010?

sábado, 16 de outubro de 2010

Encontro supra partidário pró Dilma ontem

Reuniram-se ontem no Sindicato dos bancários de Campos pessoas de vários partidos de esquerda, movimentos sociais e políticos eleitos de partidos de esquerda. A diversidade do público no evento simboliza o que é a campanha de Dilma: a verdadeira democracia, a representação da diversidade. A platéia foi formada principalmente por pessoas de classes populares, por nossa classe trabalhadora, como era no ABC de Lula há mais de trinta anos.

Algumas lideranças do PT e demais entidades compuseram a mesa e reforçaram os ideais democráticos do partido, bem como a forma maldosa utilizada pela direita fascista brasileira para desmoralizar a candidata das classes populares e da igualdade. A verdade desta afirmação pôde ser vista ontem: uma platéia lotada de pessoas de origem popular, maioria mulheres, minoria branca.

Diferente do ódio incitado pelos conservadores que apenas querem manter uma política beneficente aos ricos e aos estabelecidos, o evento simbolizou a igualdade que o Brasil precisa, com a presença de pessoas de todas as classes, cores e gerações. E com maioria feminina. Este é o Brasil que a gente quer e precisa. Este é o Brasil que já está começando a existir, desde LULA, e que precisa de DILMA.

DILMA não foi braço direito do governo LULA. Esse dito muito comum expressa uma condição de subalternidade. DILMA foi CABEÇA. Encabeçou várias das principais realizações econômicas e sociais do governo. DILMA não quer a fragmentação da sociedade brasileira. Isso não é democracial. Ela e todos nós queremos o bem-estar de todos. Isso não significa tirar nada de quem já tem. Senão, apenas pobres votariam em Lula e DILMA. E não é essa a realidade.

Estamos já buscando na prática uma das palavras mais pronunciadas por Serra: UNIÃO. O encontro ontem simbolizou isso. Como está acontecendo em todo o país. Daqui há pouco o encontro é no centro da cidade. Não será diferente. Não vamos apelar para a religiosidade do povo. Esta deve ser simplesmente respeitada. Vamos convocar a inteligência do povo, e principalmente das classes populares, subestimada pela campanha enganosa dos conservadores, traço este típico do fascismo, que se achava superior a outros povos.

A figura política mais conhecida presente no evento foi BENÉ, deputada federal eleita pelo PT. Mulher, negra, simboliza o lado mais fraco do Brasil seguindo avante. Como nossa revolução é a construção pacífica e gradual da igualdade, e isto significa semelhança em termos econômicos, sociais e de respeito ao próximo, vamos continuar. Tiramos e não queremos deixar que volte a tropa do Professor da USP, filho da elite brasileira, que vendeu o país. Estamos recuperando o país, melhorando para todos e principalmente para os que mais precisam.

Já começamos a vencer o preconceito regional e de classe elegendo Lula. Agora, vamos vencer um preconceito ainda maior, ou seja, nosso machismo disfarçado na brincadeirinha de que a mulher brasileira é a mais bonita do mundo. Vamos vencer isso elegendo uma mulher. E uma mulher branca, com origem de classe média baixa, e que não veio do Nordeste, por que nós queremos uma nova abolição no Brasil. E isso não significa fragmentar o Brasil, como faz o racismo conservador do PSDB. Significa unir, como ele gosta tanto de dizer.

Por isso, uma mulher, branca, de origem na classe média baixa, deve governar este país. Por que, para além do partido, o ideal desta campanha, compartilhado por pessoas de todas as classes e cores, é o da democracia, no sentido da liberdade, e liberdade significa igualdade, porque igualdade significa bem-estar econômico, social e moral para todos. O Brasil está neste momento realizando sua segunda abolição, e esta deve ser melhor do que a primeira. Isso não é mais um sonho, é um projeto em andamento.

Como dizia Joaquim Nabuco, a escravidão era algo que aprisionava a todos, mesmo aos ricos. Hoje podemos pensar da mesma forma. O racismo da direita fragmenta o povo, não compreende que, gradualmente, melhorando a vida das classes populares, melhoramos a vida de todos, pois diminuímos a violência, o crime, facilitando a vida de quem mais precisa, sem tirar dos que já tem, mas com políticas que simplesmente administram a riqueza nacional pensando em todos.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

TROPA DE ELITE 2: QUEM É A ELITE DA TROPA?

O filme Tropa de Elite 2 já estréia batendo vários recordes. Um deles é ter sua estréia no interior de forma curiosa. Estou em Campos agora. Nunca vi um filme de grande bilheteria estrear aqui na mesma data oficial da estréia nacional. Sem contar a quantidade de sessões colocada. É claro que a grana investida na estréia foi alta.

É curioso que um filme cujo subtítulo é "o inimigo agora é outro" e cujo tema central é o combate à corrupção na política seja lançado no Brasil em pleno início de segundo turno para eleições presidenciais entre PSDB e PT, cujos discursos e práticas políticas, contrário a um dos sensos comuns mais difundidos sobre o tema, o de que seriam a mesma coisa, são exatamente o combate à corrupção no Estado (PSDB) e o interesse na redistribuição de renda e na ascensão econômica e política das classes populares (PT). Para não subestimar a inteligência do leitor, já não preciso dizer com qual partido o tema do filme tem afinidade e quem teria o interesse em financiá-lo.

Achei engraçado que, quando foi lançado o filme "Lula, filho do Brasil", ouvi gente dizendo coisas do tipo "apenas Hitler financiou um filme próprio", sem naturalmente provar que Lula teria financiado o próprio filme. Agora me aparece este Tropa 2 em pleno segundo turno... A estratégia dos tucanos, filiados ao partido ou não, assumidos ou não, ou seja, uma das maiores estratégias dos inimigos do PT, tem sido a associação, na maioria dos casos, implícita e sutil, da imagem do partido ou de figuras expressivas dele, com o autoritarismo.

Como toda mentira para "pegar" precisar ser sutil, ou seja, uma meia-verdade, que apele para aparências e dados parciais, neste caso não é diferente. Quem me dera que os tucanos tivessem com o boneco Pinóquio a semelhança de crescer o nariz quando mentem. Ficaria mais fácil ver como estão apelando feio nestas eleições. Não posso afirmar que o filme é dos tucanos ou pago por eles, mas como cidadão antes de tudo, eleitor e intelectual, posso refletir e apresentar algumas possíveis afinidades entre o filme e o partido.

Como eu dizia, acerca do filme sobre a vida de Lula, os inimigos do PT sustentaram o argumento do autoritarismo, central ao lado do argumento da corrupção no Estado. No geral, tentaram associar a imagem de Lula ao fascismo, mesmo depois de oito anos de sucesso no governo, em favor das classes populares. Em sua passagem na UFJF, que presenciei, pude escutar algum incauto desdenhando da performance de Lula, que fala gesticulando os braços, e associando-a ao "Hai Hitler".

Primeiro, há um preconceito de classe nesta postura tucana, cuja maldade às vezes quase me provoca a vontade de acabar literalmente com alguns narizes tucanos, pois ao escarnecer o jeito de classe popular de Lula também se escarnece e explicita o preconceito contra as classes trabalhadora e ralé, que ele mais representa. É lógico que a imagem contrária é a do jeito bem comportado, da pessoa calma e auto-controlada, da figura de FHC e que Serra se esforça a ser.

Como toda mentira é ambígua, precisa confundir o leitor, agora sutilmente se associa a imagem específica de Dilma ao autoritarismo. Para parecer crítico, o argumento conservador tentou ser sutil. Conseguiria, se não tropeçasse em seu próprio preconceito de classe, que não consegue esconder a raiva pela ascensão econômica e moral das classes populares no Brasil de Lula. Nem me venham com a falácia da continuidade da política dos tucanos, pois tal ascensão dependeu de políticas específicas de redistribuição, como o fomento pesado ao crédito para a chamada classe C.

Bem, a criação da imagem autoritária de Dilma tentou ser sutil, por exemplo, em edição recente da Veja, que está fazendo uma seqüência cujas capas todas se remetem ao trocadilho do "Polvo" no poder. Numa delas, a sacanagem disfarçada de crítica e bom senso finge admitir que reconhece avanços de Lula, postura ensinada com todo o cinismo e fingimento da classe média mais estabelecida, e praticada por seu mentor FHC. Ele andou escrevendo coisas recentes neste tom. A revista dizia que Lula resolveu o problema do autoritarismo e da discórdia, mas que Dilma parecia ser um passo atrás neste avanço do partido e do governo.

O mesmo preconceito de classe que tenta associar os representantes das classes populares no poder com autoritarismo, é o que ditou o tom do Tropa de Elite 1, sobre o qual escrevi e o link se encontra nos links de textos deste blog. Neste primeiro filme, o tema explícito era a corrupção da polícia e a dificuldade de se enfrentar o problema da segurança pública. O tema implícito era o preconceito de classe, visível se observarmos com calma que, ao invés de um problema de corrupção, como principal questão nacional, o que temos é um problema de classe, no qual a realidade do BOPE é ralé matando ralé, pois os membros do batalhão são em maioria oriundos de classes populares colocando seus corpos em defesa das classes estabelecidas.

Agora, em pleno segundo turno, o inimigo tucano não é outro, como afirma o Tropa 2. O inimigo é o mesmo, ou seja, as classes populares, só que o ódio incitado, por ser o momento da eleição, não é diretamente contra a ralé desesperada na miséria que comete crimes, como no primeiro, mas sim contra os seus representantes que estão no poder. Afinal, nunca se falou tanto em corrupção, algo presente em todo capitalismo que já existiu e em todo Estado nacional moderno, logo, presente em cento e poucos anos de Brasil república anteriores ao governo Lula. Mas, parece ficar claro com o discurso dos tucanos e com este filme Tropa 2, se olharmos com calma que, como a mentira tem que ser sutil, é lógico que o bordão seja "o inimigo agora é outro". O tema assumido do filme é a corrupção da política, como todos sabem.

Achei curioso a fala de um conhecido diretor do cinema brasileiro, Daniel Filho, no último festival de cinema realizado no Odeon do Rio de Janeiro, sobre o fato de o filme de Lula ter sido indicado para competir ao Oscar estrangeiro. Engraçado como as coisas sutilmente se encaixam. Ele acaba de lançar um belo filme sobre Chico Xavier, certamente uma das personalidades mais importantes da religiosidade brasileira, e por acaso também em época de eleição. Seria ingenuidade e imprudência de sociólogo se eu afirmasse ao leitor que tudo isso é encomendado pelos tucanos. Mas posso incitar a reflexão das afinidades de uma concepção de classes estabelecidas com a produção artística em plena época de eleição, e não qualquer eleição, mas sim uma na qual o único governo depois de Getúlio que enfrentou severamente a questão social central do Brasil, que é a de classe, procura eleger sua sucessora.

Daniel Filho, inconformado desde seu lugar estabelecido de classe, com o fato de o filme que mostra ao mundo um representante do lado mais prejudicado do Brasil chegando ao poder ter sido indicado no lugar dos conservadores, fino que é este diretor, foi afinado com o discurso que atribui ao PT o autoritarismo e, logo, deixa nas entrelinhas que os democráticos são outros...Seu comentário foi educadamente sarcástico: "como é mesmo o nome do filme, Lula o 'dono' do Brasil?" (o nome verdadeiro é "Lula, o filho do Brasil"). Com todo o respeito que tenho às religiões, como instituições legítimas, e a religiosidade como um todo, como fenômeno humano universal, bem como à figura de Chico Xavier e a seus fiéis e admiradores, como sociólogo tenho a obrigação de não esconder o dado de que o espiritismo se trata de uma religiosidade muito mais de classe média no Brasil, ainda que Chico tenha ajudado muita gente pobre. Nada disso é calculado. São afinidades de classe opostas ao governo que tentam minimizar a desigualdade de classe no Brasil.

Assim, a pergunta que quero deixar para a reflexão é: o que é ser autoritário e o que é ser democrático? O discurso do combate à corrupção no Estado refere-se à nação e ao país em abstrato. Ora, ninguém fez isso melhor do que Hitler...O discurso e a prática que admite a pesada desigualdade de classe no Brasil é concreto, pois não existe um país ou uma nação sem classes sociais. A própria existência do conceito de classe só faz sentido se pensarmos na desigualdade. Logo, quando ele é sutilmente tirado de foco pelo discurso anti-corrupção, abandona-se a questão social mais importante, marca esta registrada dos tucanos e de seus simpatizantes.

Espero ter contribuído para uma reflexão sobre quem é a "Elite da tropa" que afirma agora pretender enfrentar a corrupção na política, corrupção esta que por acaso sempre favoreceu às classes favorecidas e não às classes populares. Ou alguém acha que a ralé despedida do mercado e a classe trabalhadora brasileira, dispersa batalhando em grande parte no trabalho precário, levam vantagem com a corrupção em Brasília?

Quanto à ralé, foi o PT de DILMA que sistematizou todas as políticas de amparo imediato. quanto à classe trabalhadora, nossos batalhadores, também foi o PT de DILMA que fomentou recursos para suas ascensão e melhor qualidade de vida. Então, caro leitor, quem é o inimigo nesta história?

Quero creditar ao Prof. Jessé Souza da UFJF a compreensão da tirada de foco da questão de classe para a questão da corrupção, ou seja, o que diferencia PSDB e PT e deixa claro quem é autoritário e quem é democrático no Brasil.

Como curiosidade de leitura, sugiro os livros organizados pelo mesmo professor, A RALÉ BRASILEIRA (BH: UFMG, 2009) e OS BATALHADORES BRASILEIROS (BH: UFMG, 2010).