quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Nova classe no Velho mundo

Recentemente, o sociólogo Jessé Souza, da Universidade Federal de Juiz de Fora, junto com colaboradores, lançou um livro intitulado 'Os Batalhadores Brasileiros - nova classe média ou nova classe trabalhadora, pela editora da UFMG. Nele, os pesquisadores apresentam o resultado de uma pesquisa sobre uma fração crescente da sociedade brasileira, que não é nem a ralé estrutural desempregada, nem a classe média tradicional, ocupada em profissões liberais. Esta fatia da população, heterogenea e crescente nos últimos dez anos no Brasil, já tem sido definida por intelectuais brasileiros como uma 'nova classe média', ou 'classe C', em termos economicos. Após pesquisa realizada nas cinco regiões brasileiras com vários perfis desta parte da população, como feirantes, profissionais do telemarketing, pequenos comerciantes urbanos formais e informais, bem como pequenos produtores rurais, o grupo convencionou definir tal fração social como uma 'nova classe trabalhadora', e chamá-la pelo nome que a própria sociedade a confere, ou seja, como 'batalhadores'.

Estas pessoas se definem por uma ética do trabalho duro e pela origem geralmente de família pobre, com pouco ou nenhum estudo formal, porém portando algum saber prático para o trabalho, geralmente aprendido na família. O discurso liberal na esfera pública brasileira já se apropria do crescimento desta nova classe para legitimar o crescimento economico do Brasil no cenário mundial da última década. Entretanto, a mesma pesquisa mostra que a vida dura levada por tais pessoas, ainda que adiram a certos estilos de vida e consumo típicos de classe média, aponta para uma instabilidade social pouco alterada pelo crescimento economico brasileiro.

Esta nova classe trabalhadora não é homogenea como a antiga classe trabalhadora do fordista, encontrada facilmente dentro das fábricas e indústrias. Atualmente, o capitalismo é cada vez mais informatizado e informalizado, o que faz crescer suas frações fora da fábrica, através da terceirização de mão de obra e da iniciativa de pequenos empreendimentos por parte de batalhadores que apresentam capacidade prática e inteligencia para o trabalho autonomo. A informalidade não é novidade em países da periferia do capitalismo, como Brasil e México. Atualmente, porém, ela cresce em quantidade e em significado. A nova classe trabalhadora é um fenomeno mundial, não apenas periférico, atualmente.

Em Freiburg, cidade pequena do sul da Alemanha, pude ver parte dela principalmente em dezembro, quando é montada uma feira de pequenos comércios no centro da cidade, na qual pode-se ver a produção artesanal e a comercialização de produtos alimentícios diversos, a maioria típicos da região, bem como a produção de artesanatos do vestuário, dentre outros.

Também na Alsácia, território frances, pode-se ver o mesmo fenomeno, em feira um pouco maiores e mais heterogeneas, nas quais os trabalhadores geralmente são famílias que possuem uma íntima relação com seu produto, desde sua origem como sua especificidade. A questão interessante que mereceria uma investigação melhor é em que medida a nova classe trabalhadora no velho mundo difere em qualidade de vida e em estabilidade social e política da nova classe trabalhadora na periferia, cuja citada pesquisa já apontou para uma estabilidade social relativa, em tempos de instabilidade economica, ainda que se celebre o crescimento economico do Brasil como Estado nacional.

Crescimento economico não significa desenvolvimento social, e ainda não é possível afirmar que, mesmo diante do argumento de um certo declínio da economia européia, a qualidade de vida por aqui tenha decaído. A primeira impressão por aqui, que pode estar equivocada, é a de que toda família tem dignidade e qualidade de vida, o que se define por condições básicas de moradia, alimentação e estudos para os filhos, algo que os batalhadores na periferia ainda estão buscando as duras penas. Qualquer comparação do tipo precisa considerar a diferença entre condição economica e qualidade de vida.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Meu casaco de europeu

Num belo dia, vc percebe que não é mais criança. Que seus passos são um pouco mais firmes. Que já não pode ter mais medo de certas coisas. Quando eu visto meu casaco negro, tudo se transforma. Não se brinca com estética no velho mundo. O feminismo causou alguns estragos aqui. Salvo as evidentes transformações na hierarquia entre os generos e a inserção crescente das mulheres em melhores lugares na dimensão da produção, o que resta é estranho.

Como o mundo não é divido em nações, mas em classes, é apenas uma questão de tempo que certos comportamentos pós-vanguarda 68 se tornem padrão em um país como o Brasil. A classe média das grandes capitais brasileiras já se torna suporte deles. As cores cinzentas, típicas de civilizações que vivem a maior parte de seu tempo no frio, como percebeu há tempo Gilberto Freyre, não impede que as pessoas aqui tenham sentimentos e emoções fortes. É possível sentir o calor humano no frio. É preciso se proteger do frio, mas não do calor das pessoas.

Entretanto, todos temos nossas avaliações sobre os outros. Alguns mitos do nacionalismo metodológico dominante nas ciencias sociais começam a cair por terra, quando observamos com calma a rotina e o comportamento do povo alemão. Numa cidade pequena como Freiburg, há pessoas de várias origens culturais. O contato inter cultural inicial suscita algumas questões curiosas. É difícil não ser identificado com o samba quando se diz que se é do Rio de Janeiro. Logo, visto meu casaco de europeu. Eles também sambam, ainda que com muita roupa, e eu gosto de rock.

Outro dia alguém me pediu pra tocar um beatles no violão, e depois 'garota de ipanema'. Fiquei devendo a segunda e não faço questão de pagar. Este nacionalismo não vale a pena. Apenas representa a elite tupiniquim em todo o seu particularismo. Logo, visto meu casaco de europeu.

No contato entre os generos, talvez consigamos enxergar ainda mais certos mitos. A sexualidade brasileira é exaltada como mais despojada e feliz. Prato cheio para o estigma da animalidade. Não é difícil ver por aqui a animalidade humana em sua dimensão mais primitiva, a do amor, em plena evidencia. Entretanto, um dos mitos do nacionalismo nos diz que isso é peculiaridade dos trópicos. Logo, visto meu casaco de europeu.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

ATO 1 - parte 2

as vezes é preciso por um freio em si mesmo.
não se pode desafiar a si próprio.

as vezes, é preciso aceitar que seu maior inimigo é vc.
que vc nunca descobrirá seus próprios limites.
que nunca vencerá todas as dificuldades.

que uma parte de vc sempre negará tudo o que vc faz.
que vários tempos habitam em vc.

aquele rosto sem barba ainda expressava a ausencia da verdade.

- conhecereis a verdade, e ela vos libertará.

- eu disse que não ia funcionar.

- o que importa é vc.

anos depois.

- eu quase morri. pelos cantos. por voce. quando te perdi, me entregava a todos como se fossem vc.

- não sabe como é difícil ouvir isso.

- como eu queria que fosse o primeiro.

as duas rodas conduziam aquele momento da vida.

girando, como a vida, em momentos.

a roupa de academia definia a mesma beleza.

o carro velho amigo.

conduziu ao que não aconteceu.

o apartamento estranho, aquelas bebidas, tudo novo demais.

- vc me despertou. eu me dou bem com ele. mas vc...

inimigo dos penteados, amigo da vaidade, sem jeito com ambos.
entonar a voz é algo que passa.

a imagem foi melhor do que a imaginação.




terça-feira, 14 de dezembro de 2010

ATO 1 - parte 1

num belo dia, voce percebe que o tempo está passando

e que ele te controlou mais do que vc a ele.

aquele cabelo molhado, encaracolado, com cheiro de creme barato,

aquela pele de adolescente, o vestido de tecido barato, porém bem costurado.

- onde está meu livro / interrogação /.

- molhou.

- como / /

um sorriso sacana, inocente, o mesmo de sempre.

as paredes da sacristia ainda são as mesmas.

testemunhas mudas do sentimento de outrora.

aquela voz sempre foi única.

- vc estuda engraçado.

- ah é, sei lá.

o batismo seria o começo de tudo, mas não foi.

um dia especial. água fria em espírito quente. e como fervia.

algum tempo depois - 'sinto o sangue ferver, mais quente do que antes'

'sinto a veia pulsar, mais forte que outrora'.

o poder mostrou seu local no poder local.

a outra força se foi.

o computador quebrado, agora, não é mais do que a vida.

- vc é um rapaz zeloso.

- levamos culpa sem vantagem.

o espírito não era menos ébrio do que agora.

ainda que o corpo fosse mais puro.

-fiquem tranquilos, eu trarei comida p vcs.

- deus te abençoe, não temos como agradecer.

- agradeçam a ele.

o onibus velho daquela velha cidade foi o palco.

um toque de mãos e corações cheios.

os mesmos que o tempo, dono da história, haveria de esvaziar.

várias caminhadas pelo mesmo lugar.

não chegaram mesmo ao lugar.

- ele sempre sentava ao seu lado.

- ai que raiva.



quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O QUE É DEMOCRACIA NO BRASIL DE 2010?

Os tucanos falam em democracia o tempo inteiro. Na reta final, tentam desesperadamente associar a imagem do PT e principalmente de Dilma ao autoritarismo. Estranho isso. Nos faz refletir sobre um dos conceitos mais primários das ciências sociais. Então, vejamos o que seria a democracia no Brasil de 2010.

Se alguém evoca com veemência um dos valores fundadores do ocidente, é preciso observar quais são as práticas e a visão de mundo desta pessoa ou deste grupo para ver se são coerentes com os valores que afirmam defender. De modo simples, no pensamento moderno qualquer prática que se diga democrática deve se apresentar como contrária a qualquer comportamento que pareça autoritário.

Na antiga democracia grega, este conceito não era sinônimo de igualdade política e social. Remetia-se a um formalismo de enfrentamento e discussões nos quais não participavam os escravos, considerados naturalmente como gente inferior. Estes não eram, neste sentido, cidadãos, pois não participavam das decisões da cidade. No contexto dos Estados nacionais modernos, sob o qual vivemos, a idéia de democracia e o esforço em se criar instituições coerentes com ela foram ampliados. Democracia hoje significa igualdade política e social, o que naturalmente pressupõe igualdade econômica, exatamente o que faltava para que a democracia grega fosse perfeita e o que supostamente colocaria a democracia moderna como superior a antiga.

Curioso isso. Os tucanos atuais no Brasil, pseudos-baluartes da democracia, que falam em união e paz o tempo todo, não apresentam a igualdade econômica como prioridade em seus discursos, e muito menos em suas práticas partidárias e programas de governo. Que idéia de democracia é essa? O projeto político e o discurso partidário do PT, por outro lado, tem como prioridade a redistribuição sistemática de renda e o amparo econômico às classes populares. A IGUALDADE ECONÔMICA É PRIORIDADE PARA O PT. Logo, devemos desconfiar da tentativa de associação da imagem deste partido com o autoritarismo.

Por isso, em vésperas da eleição mais acirrada no Brasil desde a re-abertura democrática, devemos pensar bem em o que é ser democrático e o que é ser autoritário na realidade brasileira atual. O discurso pseudo-democrático do PSDB é abstrato, pois só fala em desenvolvimento econômico o tempo inteiro, sem enfrentar a questão básica de como este desenvolvimento deve lidar com a questão da injustiça social no Brasil, ou seja, sua desigualdade econômica. Neste aspecto, é semelhante ao ideal de democracia grega, praticado apenas por quem era considerado cidadão, e estes eram os que tinham superioridade econômica, ou seja, não eram os escravos.

É assim que o PSDB vê e trata as classes populares no Brasil, ou seja, não as considera sistematicamente, não as coloca como prioridade na ação do Estado. Acusam o PT de ser autoritário exatamente por fazer isso. Logo, fica fácil deduzir qual ideal de governo é realmente democrático e sinônimo de igualdade política, social e econômica. Pensando e agindo desta maneira, os governos tucanos sempre trataram as classes populares como sub-cidadãos, exatamente como se fazia com os escravos na Grécia antiga.

Na verdade, o que está por trás do maldoso discurso contra o PT, de que a distribuição de renda, o que não significa tirar de quem tem, mas usar o Estado para reparar desigualdades históricas, associando o PT a uma idéia de autoritarismo, é o egoísmo de classes privilegiadas que prioriza a manutenção de uma sociedade meritocrática e, logo, desigual. Não por acaso as privatizações, marca registrada dos tucanos, são sempre uma prioridade neste ideal de desenvolvimento. O ideal democrático deles é entregar os recursos nacionais nas mãos do mercado, a principal instituição moderna geradora de desigualdade. Assim, a pergunta que não se deve nunca calar, considerando que democracia deveria ser sinônimo de igualdade em todos os aspectos da vida, é a seguinte: quem defende a democracia no Brasil de 2010?

sábado, 16 de outubro de 2010

Encontro supra partidário pró Dilma ontem

Reuniram-se ontem no Sindicato dos bancários de Campos pessoas de vários partidos de esquerda, movimentos sociais e políticos eleitos de partidos de esquerda. A diversidade do público no evento simboliza o que é a campanha de Dilma: a verdadeira democracia, a representação da diversidade. A platéia foi formada principalmente por pessoas de classes populares, por nossa classe trabalhadora, como era no ABC de Lula há mais de trinta anos.

Algumas lideranças do PT e demais entidades compuseram a mesa e reforçaram os ideais democráticos do partido, bem como a forma maldosa utilizada pela direita fascista brasileira para desmoralizar a candidata das classes populares e da igualdade. A verdade desta afirmação pôde ser vista ontem: uma platéia lotada de pessoas de origem popular, maioria mulheres, minoria branca.

Diferente do ódio incitado pelos conservadores que apenas querem manter uma política beneficente aos ricos e aos estabelecidos, o evento simbolizou a igualdade que o Brasil precisa, com a presença de pessoas de todas as classes, cores e gerações. E com maioria feminina. Este é o Brasil que a gente quer e precisa. Este é o Brasil que já está começando a existir, desde LULA, e que precisa de DILMA.

DILMA não foi braço direito do governo LULA. Esse dito muito comum expressa uma condição de subalternidade. DILMA foi CABEÇA. Encabeçou várias das principais realizações econômicas e sociais do governo. DILMA não quer a fragmentação da sociedade brasileira. Isso não é democracial. Ela e todos nós queremos o bem-estar de todos. Isso não significa tirar nada de quem já tem. Senão, apenas pobres votariam em Lula e DILMA. E não é essa a realidade.

Estamos já buscando na prática uma das palavras mais pronunciadas por Serra: UNIÃO. O encontro ontem simbolizou isso. Como está acontecendo em todo o país. Daqui há pouco o encontro é no centro da cidade. Não será diferente. Não vamos apelar para a religiosidade do povo. Esta deve ser simplesmente respeitada. Vamos convocar a inteligência do povo, e principalmente das classes populares, subestimada pela campanha enganosa dos conservadores, traço este típico do fascismo, que se achava superior a outros povos.

A figura política mais conhecida presente no evento foi BENÉ, deputada federal eleita pelo PT. Mulher, negra, simboliza o lado mais fraco do Brasil seguindo avante. Como nossa revolução é a construção pacífica e gradual da igualdade, e isto significa semelhança em termos econômicos, sociais e de respeito ao próximo, vamos continuar. Tiramos e não queremos deixar que volte a tropa do Professor da USP, filho da elite brasileira, que vendeu o país. Estamos recuperando o país, melhorando para todos e principalmente para os que mais precisam.

Já começamos a vencer o preconceito regional e de classe elegendo Lula. Agora, vamos vencer um preconceito ainda maior, ou seja, nosso machismo disfarçado na brincadeirinha de que a mulher brasileira é a mais bonita do mundo. Vamos vencer isso elegendo uma mulher. E uma mulher branca, com origem de classe média baixa, e que não veio do Nordeste, por que nós queremos uma nova abolição no Brasil. E isso não significa fragmentar o Brasil, como faz o racismo conservador do PSDB. Significa unir, como ele gosta tanto de dizer.

Por isso, uma mulher, branca, de origem na classe média baixa, deve governar este país. Por que, para além do partido, o ideal desta campanha, compartilhado por pessoas de todas as classes e cores, é o da democracia, no sentido da liberdade, e liberdade significa igualdade, porque igualdade significa bem-estar econômico, social e moral para todos. O Brasil está neste momento realizando sua segunda abolição, e esta deve ser melhor do que a primeira. Isso não é mais um sonho, é um projeto em andamento.

Como dizia Joaquim Nabuco, a escravidão era algo que aprisionava a todos, mesmo aos ricos. Hoje podemos pensar da mesma forma. O racismo da direita fragmenta o povo, não compreende que, gradualmente, melhorando a vida das classes populares, melhoramos a vida de todos, pois diminuímos a violência, o crime, facilitando a vida de quem mais precisa, sem tirar dos que já tem, mas com políticas que simplesmente administram a riqueza nacional pensando em todos.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

TROPA DE ELITE 2: QUEM É A ELITE DA TROPA?

O filme Tropa de Elite 2 já estréia batendo vários recordes. Um deles é ter sua estréia no interior de forma curiosa. Estou em Campos agora. Nunca vi um filme de grande bilheteria estrear aqui na mesma data oficial da estréia nacional. Sem contar a quantidade de sessões colocada. É claro que a grana investida na estréia foi alta.

É curioso que um filme cujo subtítulo é "o inimigo agora é outro" e cujo tema central é o combate à corrupção na política seja lançado no Brasil em pleno início de segundo turno para eleições presidenciais entre PSDB e PT, cujos discursos e práticas políticas, contrário a um dos sensos comuns mais difundidos sobre o tema, o de que seriam a mesma coisa, são exatamente o combate à corrupção no Estado (PSDB) e o interesse na redistribuição de renda e na ascensão econômica e política das classes populares (PT). Para não subestimar a inteligência do leitor, já não preciso dizer com qual partido o tema do filme tem afinidade e quem teria o interesse em financiá-lo.

Achei engraçado que, quando foi lançado o filme "Lula, filho do Brasil", ouvi gente dizendo coisas do tipo "apenas Hitler financiou um filme próprio", sem naturalmente provar que Lula teria financiado o próprio filme. Agora me aparece este Tropa 2 em pleno segundo turno... A estratégia dos tucanos, filiados ao partido ou não, assumidos ou não, ou seja, uma das maiores estratégias dos inimigos do PT, tem sido a associação, na maioria dos casos, implícita e sutil, da imagem do partido ou de figuras expressivas dele, com o autoritarismo.

Como toda mentira para "pegar" precisar ser sutil, ou seja, uma meia-verdade, que apele para aparências e dados parciais, neste caso não é diferente. Quem me dera que os tucanos tivessem com o boneco Pinóquio a semelhança de crescer o nariz quando mentem. Ficaria mais fácil ver como estão apelando feio nestas eleições. Não posso afirmar que o filme é dos tucanos ou pago por eles, mas como cidadão antes de tudo, eleitor e intelectual, posso refletir e apresentar algumas possíveis afinidades entre o filme e o partido.

Como eu dizia, acerca do filme sobre a vida de Lula, os inimigos do PT sustentaram o argumento do autoritarismo, central ao lado do argumento da corrupção no Estado. No geral, tentaram associar a imagem de Lula ao fascismo, mesmo depois de oito anos de sucesso no governo, em favor das classes populares. Em sua passagem na UFJF, que presenciei, pude escutar algum incauto desdenhando da performance de Lula, que fala gesticulando os braços, e associando-a ao "Hai Hitler".

Primeiro, há um preconceito de classe nesta postura tucana, cuja maldade às vezes quase me provoca a vontade de acabar literalmente com alguns narizes tucanos, pois ao escarnecer o jeito de classe popular de Lula também se escarnece e explicita o preconceito contra as classes trabalhadora e ralé, que ele mais representa. É lógico que a imagem contrária é a do jeito bem comportado, da pessoa calma e auto-controlada, da figura de FHC e que Serra se esforça a ser.

Como toda mentira é ambígua, precisa confundir o leitor, agora sutilmente se associa a imagem específica de Dilma ao autoritarismo. Para parecer crítico, o argumento conservador tentou ser sutil. Conseguiria, se não tropeçasse em seu próprio preconceito de classe, que não consegue esconder a raiva pela ascensão econômica e moral das classes populares no Brasil de Lula. Nem me venham com a falácia da continuidade da política dos tucanos, pois tal ascensão dependeu de políticas específicas de redistribuição, como o fomento pesado ao crédito para a chamada classe C.

Bem, a criação da imagem autoritária de Dilma tentou ser sutil, por exemplo, em edição recente da Veja, que está fazendo uma seqüência cujas capas todas se remetem ao trocadilho do "Polvo" no poder. Numa delas, a sacanagem disfarçada de crítica e bom senso finge admitir que reconhece avanços de Lula, postura ensinada com todo o cinismo e fingimento da classe média mais estabelecida, e praticada por seu mentor FHC. Ele andou escrevendo coisas recentes neste tom. A revista dizia que Lula resolveu o problema do autoritarismo e da discórdia, mas que Dilma parecia ser um passo atrás neste avanço do partido e do governo.

O mesmo preconceito de classe que tenta associar os representantes das classes populares no poder com autoritarismo, é o que ditou o tom do Tropa de Elite 1, sobre o qual escrevi e o link se encontra nos links de textos deste blog. Neste primeiro filme, o tema explícito era a corrupção da polícia e a dificuldade de se enfrentar o problema da segurança pública. O tema implícito era o preconceito de classe, visível se observarmos com calma que, ao invés de um problema de corrupção, como principal questão nacional, o que temos é um problema de classe, no qual a realidade do BOPE é ralé matando ralé, pois os membros do batalhão são em maioria oriundos de classes populares colocando seus corpos em defesa das classes estabelecidas.

Agora, em pleno segundo turno, o inimigo tucano não é outro, como afirma o Tropa 2. O inimigo é o mesmo, ou seja, as classes populares, só que o ódio incitado, por ser o momento da eleição, não é diretamente contra a ralé desesperada na miséria que comete crimes, como no primeiro, mas sim contra os seus representantes que estão no poder. Afinal, nunca se falou tanto em corrupção, algo presente em todo capitalismo que já existiu e em todo Estado nacional moderno, logo, presente em cento e poucos anos de Brasil república anteriores ao governo Lula. Mas, parece ficar claro com o discurso dos tucanos e com este filme Tropa 2, se olharmos com calma que, como a mentira tem que ser sutil, é lógico que o bordão seja "o inimigo agora é outro". O tema assumido do filme é a corrupção da política, como todos sabem.

Achei curioso a fala de um conhecido diretor do cinema brasileiro, Daniel Filho, no último festival de cinema realizado no Odeon do Rio de Janeiro, sobre o fato de o filme de Lula ter sido indicado para competir ao Oscar estrangeiro. Engraçado como as coisas sutilmente se encaixam. Ele acaba de lançar um belo filme sobre Chico Xavier, certamente uma das personalidades mais importantes da religiosidade brasileira, e por acaso também em época de eleição. Seria ingenuidade e imprudência de sociólogo se eu afirmasse ao leitor que tudo isso é encomendado pelos tucanos. Mas posso incitar a reflexão das afinidades de uma concepção de classes estabelecidas com a produção artística em plena época de eleição, e não qualquer eleição, mas sim uma na qual o único governo depois de Getúlio que enfrentou severamente a questão social central do Brasil, que é a de classe, procura eleger sua sucessora.

Daniel Filho, inconformado desde seu lugar estabelecido de classe, com o fato de o filme que mostra ao mundo um representante do lado mais prejudicado do Brasil chegando ao poder ter sido indicado no lugar dos conservadores, fino que é este diretor, foi afinado com o discurso que atribui ao PT o autoritarismo e, logo, deixa nas entrelinhas que os democráticos são outros...Seu comentário foi educadamente sarcástico: "como é mesmo o nome do filme, Lula o 'dono' do Brasil?" (o nome verdadeiro é "Lula, o filho do Brasil"). Com todo o respeito que tenho às religiões, como instituições legítimas, e a religiosidade como um todo, como fenômeno humano universal, bem como à figura de Chico Xavier e a seus fiéis e admiradores, como sociólogo tenho a obrigação de não esconder o dado de que o espiritismo se trata de uma religiosidade muito mais de classe média no Brasil, ainda que Chico tenha ajudado muita gente pobre. Nada disso é calculado. São afinidades de classe opostas ao governo que tentam minimizar a desigualdade de classe no Brasil.

Assim, a pergunta que quero deixar para a reflexão é: o que é ser autoritário e o que é ser democrático? O discurso do combate à corrupção no Estado refere-se à nação e ao país em abstrato. Ora, ninguém fez isso melhor do que Hitler...O discurso e a prática que admite a pesada desigualdade de classe no Brasil é concreto, pois não existe um país ou uma nação sem classes sociais. A própria existência do conceito de classe só faz sentido se pensarmos na desigualdade. Logo, quando ele é sutilmente tirado de foco pelo discurso anti-corrupção, abandona-se a questão social mais importante, marca esta registrada dos tucanos e de seus simpatizantes.

Espero ter contribuído para uma reflexão sobre quem é a "Elite da tropa" que afirma agora pretender enfrentar a corrupção na política, corrupção esta que por acaso sempre favoreceu às classes favorecidas e não às classes populares. Ou alguém acha que a ralé despedida do mercado e a classe trabalhadora brasileira, dispersa batalhando em grande parte no trabalho precário, levam vantagem com a corrupção em Brasília?

Quanto à ralé, foi o PT de DILMA que sistematizou todas as políticas de amparo imediato. quanto à classe trabalhadora, nossos batalhadores, também foi o PT de DILMA que fomentou recursos para suas ascensão e melhor qualidade de vida. Então, caro leitor, quem é o inimigo nesta história?

Quero creditar ao Prof. Jessé Souza da UFJF a compreensão da tirada de foco da questão de classe para a questão da corrupção, ou seja, o que diferencia PSDB e PT e deixa claro quem é autoritário e quem é democrático no Brasil.

Como curiosidade de leitura, sugiro os livros organizados pelo mesmo professor, A RALÉ BRASILEIRA (BH: UFMG, 2009) e OS BATALHADORES BRASILEIROS (BH: UFMG, 2010).